segunda-feira, 18 de junho de 2007

Bom dia a si e ao vasto auditório


Por vezes ouço os fóruns matinais da TSF ou Antena 1. Creio que também os há noutras estações de rádio e não sei se ainda continua o da SIC Notícias… Provavelmente existirá esse e outros que desconheço. Li em tempos que era moda que se tinha espalhado facilmente pois os portugueses tinham aderido com bastante entusiasmo. Assim será, de facto.
Ouvir estes fóruns desperta-me vários sentimentos que vão desde o divertimento à irritação, passando por vezes pela admiração ou indignação. Continuo a surpreender-me quando escuto pessoas que fazem questão de ser ouvidas durante alguns minutos por um número, que suponho, elevado de ouvintes mas que não acrescentam absolutamente nada ao tema que está a ser discutido. Parece que o fazem pela simples, e nada modesta, razão de gostarem de se ouvir. Quase fico intimidada com os que se exaltam e começam a gritar nervosamente relatando situações pessoais ou proferindo insultos. Há os que escrevem previamente um texto que passam a ler, com maior ou menor expressividade, ou os que parecem ansiosos para mostrar as suas qualidades poéticas e escrevem o dito texto em verso, o que pretenderá certamente fazer jus ao nosso pequeno país de poetas. Também os há que exprimem a opinião, que mais não é do que uma opinião entre outras, como se se tratasse de uma verdade inquestionável. Ou os que querem parecer detentores de um qualquer segredo que não podem revelar, mas eles lá sabem e podem garantir que estão em posse de factos inegáveis. Há os que ficam eufóricos porque estão na rádio e só depois de muitas chamadas de atenção assentem, contrariados, a desligar o aparelho radiofónico lá de casa onde se escutavam deliciados enquanto dissertavam sobre o tema em discussão nessa manhã ou outro qualquer de há dois programas ou duas semanas… que importa?
Não nego que há intervenções pertinentes e esclarecedoras ou que simplesmente pretendem transmitir opiniões fundamentadas mas apresentando-as apenas como aquilo que são: opiniões.
No entanto, o que me fica quase sempre que escuto um destes fóruns é o espanto perante a existência de tantos génios que se mantêm escondidos e inactivos, tendo em contas os nossos baixos índices de produtividade, e que apenas despertam nestas manhãs de discussão pública aparecendo cheios de dinamismo, inteligência e ideias brilhantes para depois voltarem a hibernar até que consigam novamente ter uns minutos de antena para falarem, directamente, ao vasto auditório.

domingo, 17 de junho de 2007

Sabedoria (im)popular



Não faças hoje....



... o que podes mandar fazer amanhã.

sexta-feira, 15 de junho de 2007

“Faço grande questão de ser visto. Às vezes, quando saio à rua, vou comprar um sumo mesmo sem ter sede. Se a loja estiver cheia de gente chego ao ponto de deixar cair o troco no meio do chão, com as moedas a resvalar em todas as direcções. Ponho-me então de joelhos. Tenho de fazer um esforço tremendo para me pôr de joelhos e um esforço ainda maior para me levantar. E no entanto. Talvez faça figura de palerma. Entro na Athlete’s Foot e digo, O que é que têm de sapatilhas? O empregado olha para mim como pobre diabo que sou e mostra-me o par de Rockports que todos trazem calçados. E eu digo, Nã, já tenho uns desses. Dirijo-me então à secção da Reebok, escolho uma coisa que tão-pouco se assemelha a um sapato, umas botas à prova de água, por exemplo, e peço o tamanho 43. O rapaz olha para mim outra vez, com mais atenção. Encara-me de modo firme e severo. Número 43, repito eu agarrando num botim. Quando ele volta já eu estou a descalçar as meias. Enrolo as pernas das calças para cima e fico a mirar essas coisas decrépitas que são os meus pés até se tornar claro, ao fim de um minuto de embaraço, que estou à espera que trate de mos enfiar dentro das botas. Nunca compro nada. Só não quero é morrer um dia sem ser visto.” (p. 10) A história do amor, Nicole Krauss
.
Descrição da contracapa:
Leo Gursky tenta sobreviver mais algum tempo, batendo no radiador todas as noites para dar a saber ao seu vizinho de cima que ainda está vivo e fazendo recair sobre si as atenções ao balcão do Starbucks do bairro. Mas a vida nem sempre foi assim: há sessenta anos, na aldeia polaca onde nasceu, Leo apaixonou-se e escreveu um livro. E, embora não o saiba, esse livro também sobreviveu: atravessou oceanos e gerações, e mudou vidas. Alma tem catorze anos e foi assim baptizada em honra deuma personagem desse livro. Passa a vida a vigiar Bird, o seu irmão mais novo (que acredita poder ser o Messias) e a tomar notas num caderno intitulado Como Sobreviver na Selva – Volume III. Mas no dia em que uma misteriosa carta lhe chega pelo correio começa uma aventura para descobrir a sua homónima e salvar a família. Neste seu extraordinário novo romance, Nicole Krauss criou algumas das personagens mais memoráveis e tocantes da ficção recente numa história transbordante de imaginação, humor e paixão.

quinta-feira, 14 de junho de 2007

quarta-feira, 13 de junho de 2007

O tempo que não passa…

É incrível que o tempo passe por nós sem que nos apercebamos e só reparemos que ele passou pela imagem que recebemos dos outros.
Lembro-me que quando era criança ouvia muitas vezes a minha avó, com idade já bastante avançada, afirmar “Aquela rapariga é da minha idade” ou “Há muito tempo que não via aquele rapaz”. Eu procurava-os com o olhar e surpreendia-me ao constatar que a rapariga ou o rapaz eram uma senhora ou um senhor com uma respeitável cabeleira branca, ou a ausência dela, e que tinha no rosto as marcas deixadas pelas experiências da vida.
Mais tarde, observei que também os meus pais se referiam da mesma forma a pessoas que, não tendo ainda uma idade tão avançada, também estavam longe de ser o que eu considerava um rapaz ou uma rapariga. Para mim era muito estranho que eles não compreendessem que as pessoas a quem se referiam eram adultos! Eram os pais dos meus amigos e colegas da escola e esses sim eram rapazes e raparigas… como eu!
Continuo a surpreender-me, mas já não com estes comentários, que pelo menos à minha avó não terei oportunidade de voltar a ouvir. Agora surpreendo-me quando encontro rapazes e raparigas que foram meus colegas e verifico que dos meninos que eu conheci não restou nada além da cor dos olhos, do cabelo e algum gesto ou expressão. Agora são independentes, trabalham, formaram as suas famílias e muitos têm filhos. Os rapazes e as raparigas que brincavam comigo ou faziam tropelias na escola, agora são o bancário, o enfermeiro, o dono do café, o vendedor, o professor, o polícia, o advogado, o desempregado, o dentista, o mecânico ou o psicólogo…
Colocaram de lado a bola, as bonecas e os carrinhos. Já não usam mochila e quando compram cadernos, lápis e borrachas são para os filhos e interessam-se pelo preço. Já não correm na rua ou quando o fazem não se divertem, fazem-no com um ar comprometido ou furioso e é apenas para não chegar tarde ao emprego ou para não perder o autocarro.
Se me ocorre, em alguma circunstância, ser atendida por algum deles que não me reconhece trata-me por “senhora” e já não me tentam subornar para que os ajude nos testes em troca de lápis de colorir ou de uma pedra de forma irregular. Também já não discutimos para decidir quem tem o pai mais forte, o irmão mais chato ou a professora mais bonita.
Sabem o valor do défice, o preço da gasolina e o valor da prestação da casa mas não sabem o nome de todas as bonecas, quantos carros vermelhos passaram na rua na última meia hora nem quantos tinham matrículas com capicuas. Já não dizem ser o Homem-Aranha, a Super-Mulher ou o Batman. Alguns até esqueceram tudo o que queriam ser de tão ocupados que estão e se alguém lhes lembrar, provavelmente, vão dizer que é um disparate, uma idiotice de quem não cresceu e vive preso a recordações de infância.
Ganharam idade, ganharam poder, há quem diga que ganharam juízo. Tomam decisões, resolvem problemas, dão ordens fundamentadas por vezes, outras vezes apenas “porque sim” ou “porque não” como as que detestavam receber quando eram crianças. Alguns aprenderam técnicas infalíveis na arte de negociar ou seduzir e têm sucesso numa ou em ambas. Mas perderam a capacidade de se encantarem com uma gota teimosa que entra pela janela mal calafetada, com as poças de água nos dias de chuva ou com a lagarta verde que se passeia vagarosamente na folha de couve.
Também eu cresci. Também eu não sou a menina que era… Somos todos adultos, mas para mim são, e continuarão a ser, o rapaz ou a rapariga que brincava no recreio ou no jardim. E, mesmo com o actual cabelo grisalho de alguns e com o futuro cabelo branco e movimento condicionado de todos, vê-los-ei sempre com um sorriso no olhar, a brincar e a correr pela vida fora.

sexta-feira, 8 de junho de 2007

Origem da expressão "a toque de caixa"
"Caixa — termo simplificado de «caixa de rufo» ou «caixa de guerra» — era a designação de tambor, que foi trazido para a Europa pelos Árabes. A caixa é o corpo oco do tambor: a caixa de ressonância. Como os exercícios militares eram acompanhados pelo som de tambores, dizia-se que «os soldados marchavam a toque de caixa.»
É por isso que hoje se diz que alguém anda «a toque de caixa» quando tem de fazer qualquer coisa depressa, eventualmente a mando de alguém ou à força, mesmo.
Por outro lado, na Idade Média, era costume escorraçar os indesejáveis (ébrios, indolentes, arruaceiros ou ladrões) ao som de tambores — ou seja, «a toque de caixa» — para fora das localidades, expulsando-os da comunidade.«A toque de caixa» dizia-se, portanto, da situação de alguém que era obrigado a desaparecer, a fugir, de forma rápida e violenta.
A(c)tualmente, diz-se que alguém anda «a toque de caixa» quando tem de fazer qualquer coisa depressa, com tempo limitado e, eventualmente, a mando de alguém, sem vontade própria." in http://ciberduvidas.sapo.pt/

domingo, 3 de junho de 2007

“Este romance é uma viagem alucinante pelos labirintos do desejo e da solidão, que nos arrasta para lá das convenções dos géneros e do sexo, conduzindo-nos ao conhecimento da vertigem. A escrita transparente e comunicante de Patrícia Reis ganha corpo e espessura nesta narrativa polifónica orquestrada pela obsessão do Grande Amor – aquela luz infinita que simultaneamente cega e acende a verdade íntima de cada um de nós. Este livro morde-nos, de facto, o coração – e é para isso que servem os bons livros.” apresentação de Inês Pedrosa


“A questão não é saber se o amor nos aconteceu. Isso é tão relativo que o silêncio é melhor. Percebe-se melhor. Naqueles dias eu achava que não éramos nada, tu e eu. (…) Podíamos rir e chorar, contar as desventuras da adolescência, as maldades paternas, tudo. Podíamos sem consequências, porque nada do que te disse era verdade e, por isso, me poupava nas palavras para não te castigar com tantas mentiras.
Tudo o que passámos, naqueles dias, não era definitivo, não tinha coordenadas futuras, seria, por fim, o crescendo que iria morrer de repente. Olhava-te no sono e pensava que sabia exactamente a data em que o amor se iria desfazer.
A ilha estava congelada no nosso abraço. Nos teus pensamentos era tudo o que fazia sentido. Eu tinha um prazo. Uma vida à minha espera, um regresso feito de poucas memórias. Ficarias em terra, náufrago de mim, sem perceber os destroços de nós. (…)
Não tenho coração, pensava nas noites em que ficávamos a olhar o reflexo da lua no atlântico. (…)
Hoje, quero que saibas que não te disse nada e quando te pedi para me morderes o coração era só para me certificar de que ele existia no meu peito. Tu preferiste beijar-me, nunca me mordeste e, assim, fiquei sem saber.” (pp. 16-17)
Morder-te o coração,
Patrícia Reis

sábado, 2 de junho de 2007


Piódão, 2007

sexta-feira, 1 de junho de 2007

Mário Vargas Llosa, Travessuras da Menina Má
"Ricardo vê cumprido, muito cedo na vida, o sonho que sempre alimentara de viver em Paris. Mas o reencontro com um amor da adolescência mudará tudo. Essa jovem, inconformista, aventureira, pragmática e inquieta, arrastá-lo-á para fora do estreito mundo das suas ambições.Criando uma admirável tensão entre o cómico e o trágico, Mario Vargas Llosa joga com a realidade e a ficção para dar vida a uma história na qual o amor se nos revela indefinível, senhor de mil caras, tal como a menina má.Paixão e distância, sorte e destino, dor e prazer... Qual é o verdadeiro rosto do amor? "(apresentação do editor)
E é, sem dúvida, um apaixonante e belíssimo romance.

sexta-feira, 25 de maio de 2007


à deriva?


Vi-o, pela primeira vez, no meu percurso semanal das quartas-feiras na cidade onde estudei durante quatro anos. Surpreendeu-me o contraste entre o aspecto imundo e maltratado e o olhar doce. Um olhar onde não se evidenciavam marcas e mágoas da vida. Essas notavam-se na barba hirsuta e suja, no cabelo comprido onde não passava um pente há muito ou nas roupas que usava. Vestia umas calças de ganga ruças e gastas, marcadas pela sujidade acumulada, e um pullover azul-escuro. Talvez já tivesse tido outra tonalidade de azul mas naquele momento era escuro.
Era alto e bastante magro. Nunca o vi conversar nas ruas e poucas vezes o vi sentado num muro não muito longe da minha casa. Era frequente vê-lo a andar com o passo estugado como quem tem um caminho a percorrer e um horário a cumprir.
Encontrar vagabundos ou mendigos na rua é, nos dias que correm, um lugar-comum. Para mim, naquela altura, não era. Passou a fazer parte dos meus dias e quis saber quem era. Carregava consigo muitas histórias, talvez mitos. “O que vês são marcas de um amor perdido”, disseram-me. Não sei, talvez não fossem.As versões que me contaram nem sempre eram coincidentes. Disseram-me ter sido filósofo, professor, arquitecto. Disseram-me que tinha sido abandonado ou traído por uma mulher que o trocara por outro amor. Numa outra versão a sua amada teria falecido ainda jovem. O aspecto comum a todas as versões era o sofrimento por amor e essa característica, que apenas se encontra em lendas ou nos heróis dos romances, dava-lhe uma aura especial.
Nunca me pareceu perigoso e tão-pouco tinha ar de louco. Aparentava viver calmamente num mundo que era seu. Por vezes, sorria-me e cumprimentava-me, mais com a expressão do que com a voz. Não sei se o fazia com as outras pessoas. Provavelmente sim, mas nunca perguntei. Era um segredo que eu preferi guardar.




segunda-feira, 21 de maio de 2007

Os outros

Quem são os outros?
São os teimosos. Os apáticos. Os incompreensivos. Os incompreensíveis. Os agressivos. Os lamechas. Os violentos. Os cobardes. Os ignorantes. Os que não conseguem entender nada. Os que pensam que entendem tudo. Os que pertencem a um clube que joga mal. Os que lutam por um partido que não defende os nossos interesses. Os ateus. Os fanáticos por uma religião que não responde às nossas questões. Os alienados. Os egoístas. Os defensores de causas perdidas. Os que amam demais. Os que não sabem amar. Os que se auto-elogiam. Os que nos cansam por serem derrotistas ou derrotados. Os que gostam de música sem qualidade. Os melómanos. Os que se deliciam com literatura light. Os que lêem livros indecifráveis. Os pessimistas. Os sonhadores. Os pedantes. Os incompetentes. Os que só vivem para o trabalho. Os que trabalham o mínimo possível. Os autoritários. Os submissos. Os maníacos das novas tecnologias. Os desajustados num mundo em franco progresso tecnológico. Os que fogem ao fisco. Os que são excessivamente cumpridores. Os condutores perigosos. Os que atrapalham o trânsito. Os que nunca se interrogam. Os que têm sempre dúvidas. Os que têm dívidas. Os que não sabem educar os filhos. Os que não querem ser pais. Os vegetarianos. Os defensores de alimentação biológica. Os amantes de fast-food. Os avessos a pratos exóticos. Os que só pensam em trocar de carro. Os que demoram o triplo do tempo a chegar ao emprego de autocarro. Os cravas. Os demasiado liberais. Os excessivamente conservadores. Os que têm o mesmo estilo a vida toda. Os que não conseguem decidir que estilo adoptar. Os maníacos do desporto. Os sedentários que não saem do sofá. Os amantes da TV e das pantufas enxadrezadas. Os faladores incansáveis. Os silenciosos incorrigíveis. Os contadores compulsivos de anedotas. Os que não têm sentido de humor. Os imigrantes. Os xenófobos. Os corruptos. Os que conseguem o emprego por cunha. Os empresários. Os desempregados. Os que nos bajulam. Os que não nos admiram.

Quem são os outros?
São os culpados por tudo o que de negativo nos acontece ou acontece à nossa volta. Por culpa deles há miséria, há violência, há acidentes na estrada e no trabalho, há desemprego e recessão económica.

Quem são os outros?
São os que estão errados porque, naturalmente, nós temos sempre razão.

domingo, 20 de maio de 2007



"A felicidade não está no que acontece mas no que acontece em nós desse acontecer.
Vergílio Ferreira, in Nome da Terra.












sábado, 12 de maio de 2007

sexta-feira, 11 de maio de 2007

Liberte-se!

A APED lançou uma campanha para pedir a liberalização do horário de funcionamento das grandes superfícies. Parece que seis dias por semana com porta aberta até às 23:00 e nos domingos até às 13:00 não é suficiente.
Por falta de coragem para assumir que pretende explorar (ainda mais) os consumidores sugando-os até ao tutano, invoca razões muito nobres e repletas de preocupações: combate ao desemprego, defesa das mulheres trabalhadoras (as compras são um exclusivo feminino?!?) e até o equilíbrio do trânsito (verdade verdadinha verdadeira!! Quem diria que era tão fácil de resolver?)
A APED usa a expressão “Liberte-se”. E eu também!
- Liberte-se do apelo ao consumo desenfreado e irresponsável;
- Liberte-se da ideia da ida às compras como o grande momento da semana;
- Liberte-se do mito do hipermercado como o lugar ideal para os passeios familiares;
- Liberte-se e use as tardes de domingo e os feriados para usufruir de momentos de qualidade: passeie ao ar livre, vá à praia, vá ao cinema, visite museus, leia um livro, converse com os seus familiares e amigos, conte histórias aos seus filhos, pratique desporto, descanse. Faça qualquer coisa. Mas, pelo menos por umas horas, liberte-se das armadilhas que os especialistas de marketing, inocentemente, prepararam para si.


segunda-feira, 7 de maio de 2007

Moralidade por decreto

"O Governo chinês anunciou, esta semana, uma nova legislação que proíbe os seus funcionários de terem amantes, sob pena de despedimento. A ideia é não só punir uma «falta de conduta» como prevenir a corrupção. Outros «modelos de moralidade» são exigidos: não abandonar a família ou não violar a política do filho único.» Visão, nº739





Se o fruto proibido for, de facto, o mais apetecido os despedimentos irão disparar em flecha.

domingo, 6 de maio de 2007

Dia da Mãe
Detesto generalizações. Todas. Sem excepção. Quer tenham tendência a denegrir ou a enaltecer uma raça, um povo, uma profissão, um estatuto, uma condição social ou outras. A condição de mãe não foge à (minha) regra.
No dia da mãe criam-se poemas ou usam-se os de poetas consagrados e circulam pela Internet imagens e quadros alusivos ao dia. E generaliza-se.
Fala-se da condição de mulher-mãe como se fosse sinónimo de generosidade, altruísmo, alegria, partilha e uma quantidade inesgotável de sentimentos positivos. Neste dia, toda a gente se esquece que nem todas as mulheres que têm filhos são boas mães. E não penso apenas nas mães más, horríveis, sem carácter e sem escrúpulos que de vez em quando (com maior frequência do que seria desejável) saltam para as páginas dos jornais e preenchem os noticiários da rádio e da televisão. Toda a gente tem consciência, quanto mais não seja de tempos a tempos, que essas existem. Penso noutro género de mãe: egoísta, negligente, desinteressada. O tipo de mulher que apenas é mãe porque é isso que a sociedade espera que ela seja mas que, a partir do momento em que coloca uma vida no mundo, encara essa criança apenas como uma pessoa pequena que está em casa e precisa de alguns cuidados, mas pouco mais.
Há, ainda, as mães que pretendem que os seus filhos sejam reflexo dos seus desejos. Ambicionam que os filhos sejam social e profissionalmente tudo o que elas não tiveram condição ou possibilidade de ser, sem que haja o mínimo respeito pela individualidade e carácter da criança. Sem que o conceito de felicidade da criança seja tido em consideração. E pior: mostrando-lhe a frustração e o desprezo quando os objectivos que lhe impôs não são alcançados.
Estas mães passam, muitas vezes, despercebidas. Por vezes, até são consideradas mães normais ou boas mães, mas os seus filhos entendem os sinais que elas lhes enviam e se no primeiro caso vão sentindo a sensação de abandono, no segundo sentem a humilhação pela raiva e decepção que provocam nas duas progenitoras.
E é do conhecimento geral que as maiores marcas não são deixadas por uma palmada.
Não desejo, por isso, um dia feliz a todas as mães do mundo. Apenas o desejo à minha e a todas as outras boas mães.

sábado, 28 de abril de 2007


World Press Cartoon

Porque, de facto, há imagens que dizem mais do que mil palavras.
A visitar em Sintra, no Centro Cultural Olga Cadaval, até 20 de Maio.


1º Prémio de Cartoon Editorial - Cristina Sampaio


sexta-feira, 27 de abril de 2007

lisboetas



"Lisboetas" é um documentário político sobre a vaga de imigração que nos últimos anos mudou Portugal. O retrato acutilante e extraordinário de um momento único em que o país e a cidade entraram num processo de transformação irreversível.É uma janela secreta sobre novas realidades: modos de vida, mercado de trabalho, direitos, cultos religiosos, identidades. É uma viagem a uma cidade desconhecida, a lugares onde nunca se vai mas que estão lá. "Lisboetas" é um documentário de Sérgio Tréfaut e ganhou o Prémio de Melhor Filme Português na primeira edição do IndieLisboa.” Público

E, acrescento eu, vale bem a pena!





quinta-feira, 26 de abril de 2007

leituras





“O heroísmo mais difícil e o que eu mais admiro não é o dos profissionais do perigo, nem dos valentes da Hora H, essa valentia do grande rasgo, do impulso imprevisível e cintilante. Não: o heroísmo a que eu tiro o chapéu é o do homem vulgar, o heroísmo do trabalho, da luta diária, da tenacidade contra o desânimo, contra o aborrecimento, contra a própria dissolução a que se chama clarividência… É esse o único heroísmo a que eu aspiro.” Os Insubmissos, Urbano Tavares Rodrigues

Monsanto, 2007

quarta-feira, 25 de abril de 2007



25/04/74

Quando se assinala a comemoração do 25 de Abril sinto sempre que me falta alguma coisa. Quase me sinto envergonhada porque dessa época privada de liberdade apenas tenho o conhecimento que me foi transmitido pelos mais velhos ou pelo que ao longo dos anos li e procurei saber. Esse é, também, o conhecimento que tenho relativamente a outras datas marcantes da nossa história mas no caso específico da Revolução dos cravos tem outra dimensão. Grande parte das pessoas que conheço e conheci tem algo a dizer - os mais velhos apontam as diferenças entre o “antigamente” e o “agora” ou têm histórias e situações para relatar, os que se seguem têm recordações do dia 25 de Abril de 74 ou dos dias que se seguiram: estavam na escola ou a brincar, ouviram comentários dos mais velhos, notaram alguma agitação… E eu… bem, eu estava na barriga da minha mãe, aguardando serenamente que outros lutassem para que eu nascesse em liberdade. Durante alguns anos era essa a resposta que dava, a sorrir, quando a mediática questão do Baptista Bastos guiava as conversas. Sorria mas sentia-me vazia e pertencente a uma geração sem história, pobre em ideais e de parcas ideias.




terça-feira, 24 de abril de 2007

Proposta de alteração à lei

Proponho que quando nos cruzemos na estrada com mestres
em manobras perigosas
ou doutorados em chico-espertismo
seja permitido por lei
sair do carro e, pedagogicamente, esmurrar-lhes o nariz.
Há que ensinar-lhes regras de civismo e de convivência em sociedade,
usando a única linguagem que terão capacidade de compreender.*





* Passar muitas horas na estrada tem consequências nefastas na alteração da personalidade.

segunda-feira, 23 de abril de 2007

Dia Mundial do Livro


“Numa ocasião ouvi um cliente habitual comentar na livraria do meu pai que poucas coisas marcam tanto um leitor como o primeiro livro que realmente abre caminho até ao seu coração. Aquelas primeiras imagens, o eco dessas palavras que julgamos ter deixado para trás, acompanham-nos toda a vida e esculpem um palácio na nossa memória ao qual, mais tarde ou mais cedo – não importa quantos livros leiamos, quantos mundos descubramos, tudo quando aprendamos ou esqueçamos -, vamos regressar.”

A sombra do vento, Carlos Ruiz Zafón






Eu recordo o primeiro livro que li sozinha, com seis anos, e cuja história me fascinou ao ponto de a memorizar na íntegra – O Soldadinho de chumbo

“Durante a noite, quando todos dormem, os brinquedos saem do baú…”

domingo, 22 de abril de 2007

Na véspera do dia Mundial do livro...



... indigno-me com os editores que se interessam exclusivamente pelo lucro, descurando critérios de qualidade em relação a livros que são publicados sob a sua alçada. Não aceito que pessoas com responsabilidade naquilo que é colocado à venda nas livrarias acedam a publicar livros que mais não são do que lavagem de roupa suja entre gente que não tem qualquer pudor em profanar um objecto que deveria merecer todo o respeito, transformando-o num reles veículo de insultos e bisbilhotice, num diário de estupidez humana - como acontece com o ex-casalinho do norte.
Quando verifico que essas imitações de livros ocupam o top de vendas surpreendo-me pois não conheço uma única pessoa que confesse ter lido uma das ditas obras, que admita ter um exemplar em sua casa ou que não se refira às mesmas com escárnio e/ou desdém.
Tratar-se-á aqui, provavelmente, do mesmo mistério que justifica os discos de ouro e platina de muitos cantores da nossa praça de que ninguém gosta.
Election présidentielle en France



http://cartoons.courrierinternational.com

sexta-feira, 20 de abril de 2007

Pequenos prazeres



"Come chocolates, pequena; come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais do que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!"






Às vezes, há pequenos nadas que tornam os nossos dias mais felizes.
Às vezes, podemos guardá-los connosco para a eles recorrermos quando queremos mimar-nos.
Um desses casos é o resultado do trabalho realizado pela editora Guerra e Paz que editou, há alguns meses, a Tabacaria, com traduções em francês, espanhol, italiano e inglês e fantásticas fotografias, a preto e branco, de Luís Miguel Castro.


quarta-feira, 18 de abril de 2007

(des)conversas ocas(ionais)





- Eu nem sei o que é ter tempo livre...
- O meu tempo é sempre livre... a prisioneira sou eu...


segunda-feira, 16 de abril de 2007

Enrendilhado de amendoeira em flor...






sexta-feira, 13 de abril de 2007


quinta-feira, 12 de abril de 2007

leituras

"Não há nenhuma diferença entre aquilo que aconteceu mesmo e aquilo que fui distorcendo com a imaginação, repetidamente, repetidamente, ao longo dos anos. Não há nenhuma diferença entre as imagens baças que lembro e as palavras cruas, cruéis, que acredito que lembro, mas que são apenas reflexos construídos pela culpa. O tempo, conforme um muro, uma torre, qualquer construção, faz com que deixe de haver diferenças entre a verdade e a mentira. O tempo mistura a verdade com a mentira. Aquilo que aconteceu mistura-se com aquilo que eu quero que tenha acontecido e com aquilo que me contaram que aconteceu. A minha memória não é minha. A minha memória sou eu distorcido pelo tempo e misturado comigo próprio: com o meu medo, com a minha culpa, com o meu arrependimento. " José Luís Peixoto, Cemitério de Pianos

quarta-feira, 11 de abril de 2007

to be or not to be (2)

Depois de ouvir a entrevista...

postembrancopostembrancopostembrancopostembrancopostembrancopostembrancopostembranco
postembrancopostembrancopostembrancopostembrancopostembrancopostembrancopostembranco
postembrancopostembrancopostembrancopostembrancopostembrancopostembrancopostembranco
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postembrancopostembrancopostembrancopostembrancopostembrancopostembrancopostembranco
postembrancopostembrancopostembrancopostembrancopostembrancopostembrancopostembranco

... aguardo pelos próximos capítulos

terça-feira, 10 de abril de 2007

Meninices

-Setôra, deu-me negativa!!
- Fui muito injusta, não fui?
- Foi!!!
- Pois… Tu empenhaste-te imenso, estiveste sempre atento e bem comportado, realizaste sempre os trabalhos de casa e até tiveste testes razoáveis…
- Não, não fiz nada disso! Mas foi injusto porque a minha mãe pôs-me de castigo as férias todas!
- Pois é…que injustiça… No próximo período não me esquecerei de incluir o parâmetro “castigos parentais” nos critérios de avaliação.

segunda-feira, 9 de abril de 2007

domingo, 8 de abril de 2007

Expressões do tempo da Maria Cachucha

Quando se diz que algo «é do tempo da Maria Cachucha», significa que é muito antigo.
A cachucha era uma dança espanhola a três tempos, em que o dançarino, que se acompanhava com castanholas, começava a dança num movimento moderado, que ia acelerando, até terminar num vivo volteio. Esta dança teve uma certa voga em França, quando uma célebre dançarina, Fanny Elssler, a dançou na Ópera de Paris. Em Portugal, a popular cantiga Maria Cachucha (ao som da qual, no séc. XIX, era usual as pessoas do povo dançarem) era uma adaptação da cachucha espanhola, com uma letra bastante gracejadora, zombeteira.

sábado, 7 de abril de 2007

to be or not to be...

Tenho lido e ouvido algumas vozes iluminadas representarem o papel de advogado de defesa no “sururu” que se gerou em torno da licenciatura forjada do nosso ilustre primeiro-ministro. Defendem que exigir a um primeiro-ministro o grau de licenciado se trata de um provincianismo bacoco. Não vou discutir se o grau académico será ou não fundamental para o exercício do cargo mas assumo-me provinciana bacoca no que a este primeiro-ministro diz respeito. Não que eu pense que este primeiro-ministro deva ter uma qualquer licenciatura mas a licenciatura que apresenta no seu CV e conseguida da mesma forma que a maioria de nós (acredito eu) a consegue: com estudo e com momentos de avaliação e não através de favores e arranjinhos, de assinaturas a troco de… não faço ideia de quê… desconheço esse mundo.
Não tenho qualquer dúvida de que quando resolver falar publicamente, e passadas quase três semanas desde o início desta alegada perseguição, o primeiro-ministro nos apresentará “provas fidedignas” da legalidade da dita licenciatura, e se esperarmos mais duas ou três semanas poderemos até ser surpreendidos por documentos que atestam o seu doutoramento.
No entanto, as razões que me levam a dizer que este ministro tem o dever de ser licenciado não é a sua arrogância e ar de superioridade; o facto de a licenciatura ser um dos atributos referidos por este governo como característica do funcionário público ideal; a imposição de sacrifícios a (quase) todos os portugueses; a perseguição que faz aos que trabalham no ensino com a desculpa de que é necessário conseguir a excelência; a recordação constante de que é necessário haver muito esforço, exigência e rigor pois só assim obteremos resultados.
Este primeiro-ministro tem a obrigação de ser engenheiro tão-só porque foi desse modo que se deu a conhecer aos portugueses.

sexta-feira, 6 de abril de 2007

Elogio da preguiça


“Não deixes para amanhã o que podes fazer hoje”, diz a sabedoria popular.

Quantas vezes nos queixamos de ter deixado para mais tarde algo que poderíamos ter já feito?
E nesses momentos em que nos vemos a braços com imensas tarefas para realizar em pouco tempo, ou com um prazo a expirar, recriminamo-nos por ter deixado arrastar o que poderia ter já sido concluído. Mas nem sempre assim é. Acontece-me, não raramente, sentir exactamente o oposto: sentir que aquele é o momento certo para realizar determinada tarefa ou tomar uma decisão, é o momento em que descubro o modo mais eficaz, o detalhe que faltava, a decisão mais coerente, a forma mais inteligente ou criativa de realizar determinada tarefa. Enfim, aquele momento a que poderíamos chamar o momento m.


quarta-feira, 26 de julho de 2006

saudade

“A saudade é uma tatuagem na alma: só nos livramos dela perdendo um pedaço de nós.” (Mia Couto, O outro pé da sereia)

velhos são (só) os trapos?


Aos (alegados) eufemismos redutores e cheios de comiseração de alguns respondem outros com a rudeza das palavras, pretendendo mostrar igualdade.

Convencionou-se que “velhos são os trapos” e as pessoas de idade avançada não são velhas mas sim idosas.

Corrigiram-me, algumas vezes, e entendi que podia chamar velho ao armário ou a um brinquedo mas não ao tio-avô ou ao vizinho. Pareceu-me, por isso, sempre natural que se diga que faleceu, desapareceu ou se comemora o aniversário de um idoso de 98 anos e não de um velho da mesma idade.

Nos últimos tempos (leia-se anos) tenho ouvido ou lido muitas vozes dissonantes que consideram que usar o termo “idoso” é uma condescendência envergonhada de uma sociedade que maltrata os seus velhos. Estes usam “velho” como oposição a novo - o que me parece coerente - mas também como oposição a criança, adolescente ou adulto e a insistência em nunca usar “idoso” parece-me tão cruel, e ao mesmo tempo cheia de remorsos, como o desprezo com que o fazem os que procuram as palavras doces e politicamente correctas.

Vincent van Gogh. Old Man in Sorrow

segunda-feira, 24 de julho de 2006

silêncio

“O silêncio não é ausência da fala, é o dizer-se tudo sem nenhuma palavra”
(Mia Couto, O outro pé da sereia)

sábado, 22 de julho de 2006

Uma questão de fé



Noticiava o Courrier Internacional desta semana:

“… Cedendo à pressão da Igreja Católica, a companhia de seguros Britishinsurance.com rescindiu a apólice que garantia um milhão de libras (1,46milhões de euros) em caso de nascimento virginal. Três irmãs escocesas, quinquagenárias de Inverness, beneficiavam desse contrato havia seis anos. O prémio destinava-se a custear as despesas de educação de Cristo, se este renascesse.»


É omitido o valor que as clientes despendiam por este seguro que permitiria a Cristo usufruir de uma educação milionária e confesso alguma curiosidade. Ao mesmo tempo, interrogo-me se, neste caso, a companhia de seguros deveria ser acusada de burla ou se devemos compreender e aceitar tudo em nome da fé…
Mas uma certeza eu tenho: esta é mesmo uma daquelas ideias que não lembra a Cristo… apenas às candidatas a mãe.

Patri… quê?!?



Passados alguns dias da euforia do Mundial de Futebol, ainda se encontram resquícios da febre nacionalista que nos assolou, como ilustra um cartaz manuscrito exposto na montra de uma loja (cujos empregados são jovens que, certamente, frequentaram pelo menos o Ensino Básico) contendo a seguinte informação:

Bandeira de Portugual
a 3,99€

Ao gesto patriótico de vender (ou comprar) a bandeira nacional prefiro, sem dúvida, o dever patriótico de respeitar a Língua Portuguesa e escrever correctamente o nome do nosso país.

quarta-feira, 12 de julho de 2006

defeitos e feitios

Cada-um-é-como-cada-qual-e-temos-de-entender-e-respeitar-as-personalidades-dos-outros-porque-nós-não-somos-perfeitos-nem-devemos-fazer-julgamentos-injustos-e-etecetera-e-tal.
Depois de anos a ouvir estas lengalengas bem intencionadas até acredito que se devem pôr em prática. Por vezes, até penso que consegui desenvolver alguma tolerância em relação aos tais “outros”. Mas só por vezes! É que para entender alguns preciso de recargas de tolerância! Suspeito que se vendam por aí algures, em algum supermercado, pois só assim é possível que haja quem sorria e rejubile quando solicitado a colaborar nas decisões e organização da vida alheia, mas ainda não as descobri nas prateleiras dos supermercados junto dos chás e ervinhas milagrosas.
Não consigo entender as pessoas que teriam capacidade para serem autónomas mas que gostam de mostrar que precisam dos outros (muitas vezes menos habilitados para opinar) em tudo o que fazem ou pensam poder vir a fazer: uma opinião sobre vestuário, uma boleia, uma receita culinária, um conselho sentimental, estacionar o carro, preparar um medicamento, decidir o jantar, costurar um fato de Carnaval, a educação dos filhos, decisão de voto, hora de levantar, cumprimento de rituais religiosos, canal de tv a assistir, marcação de consulta, a prenda a oferecer à prima que mais ninguém conhece, compra de medicamentos na farmácia, redacção de convocatórias e actas ou um simples postal de aniversário… a lista seria interminável… E isto tudo pedido a quem conduz por necessidade, não tem filhos e nunca preparou um medicamento para crianças, na cozinha e na costura situa-se pouco acima do medíocre, não gosta de dar palpite na vida alheia e principalmente não gosta que se metam na sua vida ou a chateiem com aquilo que não lhe diz respeito!

quinta-feira, 29 de junho de 2006

Verdade


Verdade

A porta da verdade estava aberta,
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.
Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só trazia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.
Arrebentaram a porta.
Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metades
diferentes uma da outra.
Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela.
E carecia optar.
Cada um optou conforme seu capricho,
sua ilusão, sua miopia.

(Carlos Drummond de Andrade)

domingo, 25 de junho de 2006

de... passagem


Li há uns anos (muitos anos!) uma crónica que comentava o comportamento dos peões nas passadeiras. Nessa altura ainda eu não era condutora mas lembro-me que me diverti com a visão do cronista, que não recordo quem era, embora tenha suspeitas. Em traços muito gerais, dizia ele, que frequentemente o transeunte abranda o passo quando atravessa uma passadeira e faz tudo aquilo que não se lembra de fazer quando passa noutro local e a este propósito desfilava um rol de exemplos bastante caricatos.
Agora que sou condutora e que tenho uma visão privilegiada sobre o assunto, confirmo que o cronista exagerou muito pouco na sua descrição. Observo muitas vezes que o comum dos peões quando se encontra sobre a passadeira, com um ou vários carros e os respectivos ocupantes à espera que ele atravesse a via, se sente tomado de um tal poder que o impele a prolongar o mais possível aquela travessia. Frequentemente, fá-lo a olhar para o condutor com uma expressão de orgulho.
Também há os que correm na passadeira até terem a certeza que estão perante um veículo que parou para os deixar atravessar e nesse momento, talvez vencidos pelo cansaço, reduzem drasticamente o passo e o que era uma correria, certamente por pressa de chegar a algum local, se torna num descontraído e vagaroso passeio contemplativo.
Este prazer em atravessar quando se têm automóveis à espera é ainda mais notório em peões que aguardam pacientemente junto da passadeira enquanto olham para a esquerda e a direita, confirmam que não há qualquer vestígio de trânsito e permanecem quietos e ledos até que um carro se aproxima e só nesse momento resolvem atravessar, por vezes lançando um olhar ameaçador ao condutor como quem diz: “Calminha! Nem te atrevas a avançar que agora passo eu!!!” - assim mesmo neste tom, pois, como toda a gente sabe, em discussões as ameaças ocupam o lugar das fórmulas de delicadeza e é tudo “tu cá, tu lá”.
Este comportamento terá, certamente, uma explicação psicológica quiçá sociológica. Sendo áreas que não domino, não me atreverei a tecer teorias… Suspeito mesmo que haverá alguma comissão a quem tenha sido atribuída essa tarefa, mas não deixa de ser um comportamento que me diverte... ou que me irrita, consoante o estado de espírito do momento.

quarta-feira, 21 de junho de 2006

Respondendo à questão do dia



Não, não vou deixar de trabalhar
nem alterar a minha agenda
para assistir ao jogo de futebol





Dúvida metódica


Quando somos mais sinceros?

- quando num acesso de fúria proferimos palavras duras com o intuito de ferir

ou

- quando acalmamos as emoções, organizamos os pensamentos e medimos as nossas palavras sem esquecer o efeito que podem provocar?


terça-feira, 20 de junho de 2006

TPC - tempo para convívio

O Ministério da Educação propôs que os trabalhos de casa sejam realizados na escola e os pais e encarregados de educação aplaudiram. Todos alegam razões muito nobres:
- terminar com um factor de discriminação, pois há crianças cujos pais não têm capacidade para fazer o acompanhamento das tarefas escolares;
- maior competência dos professores para a realização desta tarefa, nomeadamente, no que respeita à aquisição de métodos de estudo adequados;
- evitar a sobrecarga das crianças que, após um dia aulas e frequentemente outras actividades extra-curriculares, chegam a casa extenuadas;
- dar às famílias a possibilidade de usufruir de um tempo de qualidade com os filhos, evitando o desgaste que a realização conjunta dos trabalhos escolares provoca.
À primeira vista, até parecem boas razões para que os malfadados trabalhos sejam realizados na escola mas esse tempo que passa a estar à disposição das famílias para convívio familiar será, de facto, aproveitado? Ou será apenas mais tempo dedicado às telenovelas e ao futebol, por parte dos pais, e à PlayStation, aos Morangos e às conversas em chats, por parte dos filhos? É inegável que esta situação simplificará a vida aos encarregados de educação que deixarão de ser alertados para o facto de os filhos não realizarem os trabalhos de casa. É óbvio que muitas famílias aproveitarão para se sentirem ainda mais desresponsabilizadas se a criança não está a responder de forma positiva às aprendizagens. Afinal… essa responsabilidade cabe à escola… Quando penso nesta questão, não consigo deixar de estabelecer um paralelo com os casais divorciados. Passo a explicar.
Toda a gente conhece as queixas de uma mãe divorciada que trata da educação do(s) filho(s) sozinha e que embora solicitando a presença ou ajuda do pai não vê este pedido realizado mas que se confronta com a felicidade do filho que, após ter sido deixado esquecido durante semanas, entra em casa radiante com a bicicleta nova que o pai lhe ofereceu. Aquela bicicleta que a mãe tencionava oferecer apenas no próximo Natal, se o comportamento e o aproveitamento escolar fossem merecedores, mas que o pai lhe ofereceu apenas para se redimir das suas ausências.
A escola passará, desta forma, a ser a mãe presente que exige, que educa, que ensina que é preciso esforço para merecer aquilo que se deseja. A família continuará a ser eternamente o pai ausente que apenas quer saber as notícias felizes, que oferece prendas, que dá a ilusão de que tudo se alcança sem que seja necessário lutar para isso.
Será desta forma que as crianças se aproximarão da essência da escola e atingirão todos os ensinamentos que se pretendem transmitir? Não creio…
foto de Robert Doisneau

E se me bastasse...


E se me bastasse…
… admirar o azul do céu…
… sentir na pele o calor do sol…
… deixar-me embalar pelo bater das ondas…

E se me bastasse…
… respirar o aroma das flores…
… escutar o som do vento nas folhas…
… contar as estrelas que me servem de tecto…

E se me bastasse…
… imaginar-me a sonhar sobre as nuvens multiformes…
… sentir o cheiro da terra molhada…

E se me bastasse…
… viver cada momento sem me refugiar no “antes” e sem temer o “depois”?


segunda-feira, 8 de maio de 2006

Sabedoria impopular 4



Quem espera…
… (nem) sempre é alcançado
.


(foto de Henri Cartier-Bresson)


segunda-feira, 13 de fevereiro de 2006

Pergunto-me...





... se a capacidade de voltarmos a acreditar depois de nos desiludirmos é, de facto, inesgotável.



sexta-feira, 10 de fevereiro de 2006

Sabedoria impopular 3



Quem diz a verdade...
... nem sempre é entendido...


(Despair, Edward Munch)




terça-feira, 7 de fevereiro de 2006

quase podia ser uma piada...



- "Setôra", o que significa souvent, na segunda linha?
- Está no vocabulário, no fundo da página.
- (ar profundamente surpreendido) Isso tudo?!? Espere um bocadinho, "setôra", para eu ter tempo de escrever!



domingo, 5 de fevereiro de 2006

Pequeno contributo linguístico




Presente do Indicativo do verbo “ensimesmar-se”

Eu enmimmesmo-me
Tu entimesmas-te
Ele ensimesma-se
Nós ennosmesmamo-nos
Vós envosmesmais-vos
Eles ensimesmam-se

E agora para dizer mais rápido, o Presente do Condicional

Eu enmimmesmar-me-ia
Tu entimesmar-te-ias
Ele ensimesmar-se-ia
Nós ennosmesmar-nos-íamos
Vós envosmesmar-vos-íeis
Eles ensimesmar-se-iam


Hoje enmimesmei-me e deu-me para isto...



sexta-feira, 3 de fevereiro de 2006

a contar os minutos....

... que me separam do fim-de-semana...


Foto de Robert Doisneau

terça-feira, 31 de janeiro de 2006

o meu mundo vazio de palavras



Com alguma frequência passo pelos meus momentos de silêncio. São momentos em que me distancio das palavras, sejam pela via oral ou escrita, sejam proferidas por mim ou apenas escutadas na voz dos outros. Todas me incomodam igualmente. Invento dores de cabeça que não tenho ou preocupações banais que não me ocupam para justificar a ausência ou para evitar um assentimento sorridente ao que me dizem mas não escuto. Todas as vozes me agridem por exigirem uma atenção que não lhes quero dar. Até a leitura, que tantas vezes é o meu único refúgio e apetecida companhia, me incomoda porque me distrai de mim. Perco-me no tempo que só vejo passar enquanto conto os minutos que faltam para que me seja possível reconstruir o meu muro e estar a sós comigo e o meu mundo vazio de palavras.

terça-feira, 24 de janeiro de 2006

Vou comprar o Ronaldinho!

Não, não sou fanática por futebol. Aliás, o futebol não me interessa minimamente e o único que sei em relação a este desporto é que se pretende marcar golos na baliza do adversário. No entanto, não entendo que esta razão seja suficiente para andarem 22 homens a correr entusiasticamente atrás da mesma bola. Para ser franca, nem acho correcto que só haja uma bola para todos. Penso sempre para comigo que seria muito mais justo e agradável, para jogadores e público, se houvesse 22 bolas em campo. Cada jogador teria a sua, o que significa que cada um deles jogaria muito mais e teria mais possibilidades de se exibir, justificando desta forma os chorudos ordenados que auferem e a multidão de fãs que mobilizam. Desta forma não seria um desporto de equipa??? Pois é! Distracções de uma individualista assumida…
Porque vou, então, comprar o passe do Ronaldinho? Li na revista Visão da última semana que o prémio do euromilhões, na altura era de 125 milhões de euros, daria para
a) pagar 12,5 vezes tudo o que os candidatos presidenciais gastaram, em conjunto, nesta campanha eleitoral;
b) comprar a Casa da Música;
c) comprar o Estádio do Sporting;
d) pagar o empréstimo do Banco Europeu de Investimento à Hungria, para a modernização das redes de transporte e de distribuição de electricidade no país;
e) comprar o passe do Ronaldinho.

Analisemos cada uma das hipóteses.
a) as presidenciais ficaram resolvidas à primeira volta. Só haverá novas eleições presidenciais daqui a cinco anos e não me apetece ter o dinheiro parado tanto tempo.
b) a casa da Música vi-a uma vez. A uns metros de distância não me pareceu mal. Mas supõe-se que a Casa da Música contribua para a vida cultural do país e em particular do Porto, não é? Vida cultural? O que é isso? Para quê? Para quem?
c) quanto ao estádio do Sporting, muito francamente, não me apeteceria ter de investir na recuperação dos estragos provocados pelos adeptos leoninos e das equipas adversárias, após cada jogo.
d) dívidas da Hungria?!? Só conheço Budapeste das brochuras das agências de viagens ou do livro homónimo de Chico Buarque. Não tenho nada a ver com isso!
e) por exclusão de partes, e sem qualquer argumento válido devido à minha ignorância no ramo, resta-me comprar o passe do Ronaldinho e acreditar que farei um bom negócio.

Mas antes, não posso esquecer-me de jogar!


dúvida...


Com tanto que se fala das presidenciais e tantos esforços que se fazem para entender os resultados eleitorais e fazer futurologia, surge-me uma dúvida: alguém fez um estudo que indique qual a percentagem de eleitores que exerceu o seu direito de voto, suficientemente, esclarecida e sabendo de facto o que estava a fazer?

amanhecer


Abri a janela e, do outro lado, encontrei para me receber um dia opaco e sem vida. As casas e as árvores de contornos indistintos adquiriram por osmose o tom cinza e baço que as rodeia. Receei integrar-me naquela paisagem unicolor e tristonha. Fechei a janela e rodeei-me de luz, cor e música, criando uma barreira fictícia entre o meu espaço e o mundo exterior.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2006

Sabedoria impopular 2




O que os olhos não vêem...
... o coração pressente.


domingo, 22 de janeiro de 2006

véspera de segunda-feira

fotografia de Robert Doisneau

sábado, 21 de janeiro de 2006

na vida como num filme

Por vezes imagino a minha vida como um filme que está a ser rodado e exibido em tempo real.
Nesse filme há um narrador omnisciente que conhece e dá a conhecer todas as situações, sem omitir qualquer pormenor. Conhece-me perfeitamente e também a todas as personagens que comigo contracenam. Conhece os nossos defeitos e qualidades, os nossos vícios, sonhos, medos e ambições. Sabe quais são os nossos sentimentos e pensamentos mais secretos. Muitas vezes, compreende aquilo que não entendemos ou que recusamos entender.
Quem assiste ao filme sabe quem são os bons e os maus, os hipócritas e os sinceros, quais as razões que nos movem, onde estão a mentira e a verdade. Sabe quando temos ou não razão, quando somos injustos, quando magoamos ou quando nos arrependemos desnecessariamente. Vê os nossos desencontros, as oportunidades que desperdiçamos, torce por nós e por vezes sussurra-nos, inutilmente, que caminho devemos seguir.
De tempos em tempos, acontece-me querer sair da tela e sentar-me por alguns minutos no meio do público anónimo. Assistir ao filme, apoderar-me do conhecimento que me falta e depois correr para dentro do ecrã e ocupar o meu lugar para que o filme tenha um final feliz.


poema cantado



Bom conselho

Ouça um bom conselho
Que lhe dou de graça
Inútil dormir
Que a dor não passa.
Espere sentado
Ou você se cansa
Está provado
Quem espera nunca alcança

Ouça meu amigo
Deixe esse regaço
Brinque com o meu fogo
Venha se queimar
Faça como eu digo
Faça como eu faço
Aja duas vezes antes de pensar
Corro atrás do tempo
Vim de não sei onde
Devagar é que não se vai ao longe
Eu semeio o vento na minha cidade
Vou p’rá rua e bebo a tempestade.


Chico Buarque de Hollanda