sexta-feira, 11 de maio de 2007

Liberte-se!

A APED lançou uma campanha para pedir a liberalização do horário de funcionamento das grandes superfícies. Parece que seis dias por semana com porta aberta até às 23:00 e nos domingos até às 13:00 não é suficiente.
Por falta de coragem para assumir que pretende explorar (ainda mais) os consumidores sugando-os até ao tutano, invoca razões muito nobres e repletas de preocupações: combate ao desemprego, defesa das mulheres trabalhadoras (as compras são um exclusivo feminino?!?) e até o equilíbrio do trânsito (verdade verdadinha verdadeira!! Quem diria que era tão fácil de resolver?)
A APED usa a expressão “Liberte-se”. E eu também!
- Liberte-se do apelo ao consumo desenfreado e irresponsável;
- Liberte-se da ideia da ida às compras como o grande momento da semana;
- Liberte-se do mito do hipermercado como o lugar ideal para os passeios familiares;
- Liberte-se e use as tardes de domingo e os feriados para usufruir de momentos de qualidade: passeie ao ar livre, vá à praia, vá ao cinema, visite museus, leia um livro, converse com os seus familiares e amigos, conte histórias aos seus filhos, pratique desporto, descanse. Faça qualquer coisa. Mas, pelo menos por umas horas, liberte-se das armadilhas que os especialistas de marketing, inocentemente, prepararam para si.


segunda-feira, 7 de maio de 2007

Moralidade por decreto

"O Governo chinês anunciou, esta semana, uma nova legislação que proíbe os seus funcionários de terem amantes, sob pena de despedimento. A ideia é não só punir uma «falta de conduta» como prevenir a corrupção. Outros «modelos de moralidade» são exigidos: não abandonar a família ou não violar a política do filho único.» Visão, nº739





Se o fruto proibido for, de facto, o mais apetecido os despedimentos irão disparar em flecha.

domingo, 6 de maio de 2007

Dia da Mãe
Detesto generalizações. Todas. Sem excepção. Quer tenham tendência a denegrir ou a enaltecer uma raça, um povo, uma profissão, um estatuto, uma condição social ou outras. A condição de mãe não foge à (minha) regra.
No dia da mãe criam-se poemas ou usam-se os de poetas consagrados e circulam pela Internet imagens e quadros alusivos ao dia. E generaliza-se.
Fala-se da condição de mulher-mãe como se fosse sinónimo de generosidade, altruísmo, alegria, partilha e uma quantidade inesgotável de sentimentos positivos. Neste dia, toda a gente se esquece que nem todas as mulheres que têm filhos são boas mães. E não penso apenas nas mães más, horríveis, sem carácter e sem escrúpulos que de vez em quando (com maior frequência do que seria desejável) saltam para as páginas dos jornais e preenchem os noticiários da rádio e da televisão. Toda a gente tem consciência, quanto mais não seja de tempos a tempos, que essas existem. Penso noutro género de mãe: egoísta, negligente, desinteressada. O tipo de mulher que apenas é mãe porque é isso que a sociedade espera que ela seja mas que, a partir do momento em que coloca uma vida no mundo, encara essa criança apenas como uma pessoa pequena que está em casa e precisa de alguns cuidados, mas pouco mais.
Há, ainda, as mães que pretendem que os seus filhos sejam reflexo dos seus desejos. Ambicionam que os filhos sejam social e profissionalmente tudo o que elas não tiveram condição ou possibilidade de ser, sem que haja o mínimo respeito pela individualidade e carácter da criança. Sem que o conceito de felicidade da criança seja tido em consideração. E pior: mostrando-lhe a frustração e o desprezo quando os objectivos que lhe impôs não são alcançados.
Estas mães passam, muitas vezes, despercebidas. Por vezes, até são consideradas mães normais ou boas mães, mas os seus filhos entendem os sinais que elas lhes enviam e se no primeiro caso vão sentindo a sensação de abandono, no segundo sentem a humilhação pela raiva e decepção que provocam nas duas progenitoras.
E é do conhecimento geral que as maiores marcas não são deixadas por uma palmada.
Não desejo, por isso, um dia feliz a todas as mães do mundo. Apenas o desejo à minha e a todas as outras boas mães.

sábado, 28 de abril de 2007


World Press Cartoon

Porque, de facto, há imagens que dizem mais do que mil palavras.
A visitar em Sintra, no Centro Cultural Olga Cadaval, até 20 de Maio.


1º Prémio de Cartoon Editorial - Cristina Sampaio


sexta-feira, 27 de abril de 2007

lisboetas



"Lisboetas" é um documentário político sobre a vaga de imigração que nos últimos anos mudou Portugal. O retrato acutilante e extraordinário de um momento único em que o país e a cidade entraram num processo de transformação irreversível.É uma janela secreta sobre novas realidades: modos de vida, mercado de trabalho, direitos, cultos religiosos, identidades. É uma viagem a uma cidade desconhecida, a lugares onde nunca se vai mas que estão lá. "Lisboetas" é um documentário de Sérgio Tréfaut e ganhou o Prémio de Melhor Filme Português na primeira edição do IndieLisboa.” Público

E, acrescento eu, vale bem a pena!





quinta-feira, 26 de abril de 2007

leituras





“O heroísmo mais difícil e o que eu mais admiro não é o dos profissionais do perigo, nem dos valentes da Hora H, essa valentia do grande rasgo, do impulso imprevisível e cintilante. Não: o heroísmo a que eu tiro o chapéu é o do homem vulgar, o heroísmo do trabalho, da luta diária, da tenacidade contra o desânimo, contra o aborrecimento, contra a própria dissolução a que se chama clarividência… É esse o único heroísmo a que eu aspiro.” Os Insubmissos, Urbano Tavares Rodrigues

Monsanto, 2007

quarta-feira, 25 de abril de 2007



25/04/74

Quando se assinala a comemoração do 25 de Abril sinto sempre que me falta alguma coisa. Quase me sinto envergonhada porque dessa época privada de liberdade apenas tenho o conhecimento que me foi transmitido pelos mais velhos ou pelo que ao longo dos anos li e procurei saber. Esse é, também, o conhecimento que tenho relativamente a outras datas marcantes da nossa história mas no caso específico da Revolução dos cravos tem outra dimensão. Grande parte das pessoas que conheço e conheci tem algo a dizer - os mais velhos apontam as diferenças entre o “antigamente” e o “agora” ou têm histórias e situações para relatar, os que se seguem têm recordações do dia 25 de Abril de 74 ou dos dias que se seguiram: estavam na escola ou a brincar, ouviram comentários dos mais velhos, notaram alguma agitação… E eu… bem, eu estava na barriga da minha mãe, aguardando serenamente que outros lutassem para que eu nascesse em liberdade. Durante alguns anos era essa a resposta que dava, a sorrir, quando a mediática questão do Baptista Bastos guiava as conversas. Sorria mas sentia-me vazia e pertencente a uma geração sem história, pobre em ideais e de parcas ideias.




terça-feira, 24 de abril de 2007

Proposta de alteração à lei

Proponho que quando nos cruzemos na estrada com mestres
em manobras perigosas
ou doutorados em chico-espertismo
seja permitido por lei
sair do carro e, pedagogicamente, esmurrar-lhes o nariz.
Há que ensinar-lhes regras de civismo e de convivência em sociedade,
usando a única linguagem que terão capacidade de compreender.*





* Passar muitas horas na estrada tem consequências nefastas na alteração da personalidade.

segunda-feira, 23 de abril de 2007

Dia Mundial do Livro


“Numa ocasião ouvi um cliente habitual comentar na livraria do meu pai que poucas coisas marcam tanto um leitor como o primeiro livro que realmente abre caminho até ao seu coração. Aquelas primeiras imagens, o eco dessas palavras que julgamos ter deixado para trás, acompanham-nos toda a vida e esculpem um palácio na nossa memória ao qual, mais tarde ou mais cedo – não importa quantos livros leiamos, quantos mundos descubramos, tudo quando aprendamos ou esqueçamos -, vamos regressar.”

A sombra do vento, Carlos Ruiz Zafón






Eu recordo o primeiro livro que li sozinha, com seis anos, e cuja história me fascinou ao ponto de a memorizar na íntegra – O Soldadinho de chumbo

“Durante a noite, quando todos dormem, os brinquedos saem do baú…”

domingo, 22 de abril de 2007

Na véspera do dia Mundial do livro...



... indigno-me com os editores que se interessam exclusivamente pelo lucro, descurando critérios de qualidade em relação a livros que são publicados sob a sua alçada. Não aceito que pessoas com responsabilidade naquilo que é colocado à venda nas livrarias acedam a publicar livros que mais não são do que lavagem de roupa suja entre gente que não tem qualquer pudor em profanar um objecto que deveria merecer todo o respeito, transformando-o num reles veículo de insultos e bisbilhotice, num diário de estupidez humana - como acontece com o ex-casalinho do norte.
Quando verifico que essas imitações de livros ocupam o top de vendas surpreendo-me pois não conheço uma única pessoa que confesse ter lido uma das ditas obras, que admita ter um exemplar em sua casa ou que não se refira às mesmas com escárnio e/ou desdém.
Tratar-se-á aqui, provavelmente, do mesmo mistério que justifica os discos de ouro e platina de muitos cantores da nossa praça de que ninguém gosta.
Election présidentielle en France



http://cartoons.courrierinternational.com

sexta-feira, 20 de abril de 2007

Pequenos prazeres



"Come chocolates, pequena; come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais do que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!"






Às vezes, há pequenos nadas que tornam os nossos dias mais felizes.
Às vezes, podemos guardá-los connosco para a eles recorrermos quando queremos mimar-nos.
Um desses casos é o resultado do trabalho realizado pela editora Guerra e Paz que editou, há alguns meses, a Tabacaria, com traduções em francês, espanhol, italiano e inglês e fantásticas fotografias, a preto e branco, de Luís Miguel Castro.


quarta-feira, 18 de abril de 2007

(des)conversas ocas(ionais)





- Eu nem sei o que é ter tempo livre...
- O meu tempo é sempre livre... a prisioneira sou eu...


segunda-feira, 16 de abril de 2007

Enrendilhado de amendoeira em flor...






sexta-feira, 13 de abril de 2007


quinta-feira, 12 de abril de 2007

leituras

"Não há nenhuma diferença entre aquilo que aconteceu mesmo e aquilo que fui distorcendo com a imaginação, repetidamente, repetidamente, ao longo dos anos. Não há nenhuma diferença entre as imagens baças que lembro e as palavras cruas, cruéis, que acredito que lembro, mas que são apenas reflexos construídos pela culpa. O tempo, conforme um muro, uma torre, qualquer construção, faz com que deixe de haver diferenças entre a verdade e a mentira. O tempo mistura a verdade com a mentira. Aquilo que aconteceu mistura-se com aquilo que eu quero que tenha acontecido e com aquilo que me contaram que aconteceu. A minha memória não é minha. A minha memória sou eu distorcido pelo tempo e misturado comigo próprio: com o meu medo, com a minha culpa, com o meu arrependimento. " José Luís Peixoto, Cemitério de Pianos

quarta-feira, 11 de abril de 2007

to be or not to be (2)

Depois de ouvir a entrevista...

postembrancopostembrancopostembrancopostembrancopostembrancopostembrancopostembranco
postembrancopostembrancopostembrancopostembrancopostembrancopostembrancopostembranco
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postembrancopostembrancopostembrancopostembrancopostembrancopostembrancopostembranco
postembrancopostembrancopostembrancopostembrancopostembrancopostembrancopostembranco

... aguardo pelos próximos capítulos

terça-feira, 10 de abril de 2007

Meninices

-Setôra, deu-me negativa!!
- Fui muito injusta, não fui?
- Foi!!!
- Pois… Tu empenhaste-te imenso, estiveste sempre atento e bem comportado, realizaste sempre os trabalhos de casa e até tiveste testes razoáveis…
- Não, não fiz nada disso! Mas foi injusto porque a minha mãe pôs-me de castigo as férias todas!
- Pois é…que injustiça… No próximo período não me esquecerei de incluir o parâmetro “castigos parentais” nos critérios de avaliação.

segunda-feira, 9 de abril de 2007

domingo, 8 de abril de 2007

Expressões do tempo da Maria Cachucha

Quando se diz que algo «é do tempo da Maria Cachucha», significa que é muito antigo.
A cachucha era uma dança espanhola a três tempos, em que o dançarino, que se acompanhava com castanholas, começava a dança num movimento moderado, que ia acelerando, até terminar num vivo volteio. Esta dança teve uma certa voga em França, quando uma célebre dançarina, Fanny Elssler, a dançou na Ópera de Paris. Em Portugal, a popular cantiga Maria Cachucha (ao som da qual, no séc. XIX, era usual as pessoas do povo dançarem) era uma adaptação da cachucha espanhola, com uma letra bastante gracejadora, zombeteira.

sábado, 7 de abril de 2007

to be or not to be...

Tenho lido e ouvido algumas vozes iluminadas representarem o papel de advogado de defesa no “sururu” que se gerou em torno da licenciatura forjada do nosso ilustre primeiro-ministro. Defendem que exigir a um primeiro-ministro o grau de licenciado se trata de um provincianismo bacoco. Não vou discutir se o grau académico será ou não fundamental para o exercício do cargo mas assumo-me provinciana bacoca no que a este primeiro-ministro diz respeito. Não que eu pense que este primeiro-ministro deva ter uma qualquer licenciatura mas a licenciatura que apresenta no seu CV e conseguida da mesma forma que a maioria de nós (acredito eu) a consegue: com estudo e com momentos de avaliação e não através de favores e arranjinhos, de assinaturas a troco de… não faço ideia de quê… desconheço esse mundo.
Não tenho qualquer dúvida de que quando resolver falar publicamente, e passadas quase três semanas desde o início desta alegada perseguição, o primeiro-ministro nos apresentará “provas fidedignas” da legalidade da dita licenciatura, e se esperarmos mais duas ou três semanas poderemos até ser surpreendidos por documentos que atestam o seu doutoramento.
No entanto, as razões que me levam a dizer que este ministro tem o dever de ser licenciado não é a sua arrogância e ar de superioridade; o facto de a licenciatura ser um dos atributos referidos por este governo como característica do funcionário público ideal; a imposição de sacrifícios a (quase) todos os portugueses; a perseguição que faz aos que trabalham no ensino com a desculpa de que é necessário conseguir a excelência; a recordação constante de que é necessário haver muito esforço, exigência e rigor pois só assim obteremos resultados.
Este primeiro-ministro tem a obrigação de ser engenheiro tão-só porque foi desse modo que se deu a conhecer aos portugueses.

sexta-feira, 6 de abril de 2007

Elogio da preguiça


“Não deixes para amanhã o que podes fazer hoje”, diz a sabedoria popular.

Quantas vezes nos queixamos de ter deixado para mais tarde algo que poderíamos ter já feito?
E nesses momentos em que nos vemos a braços com imensas tarefas para realizar em pouco tempo, ou com um prazo a expirar, recriminamo-nos por ter deixado arrastar o que poderia ter já sido concluído. Mas nem sempre assim é. Acontece-me, não raramente, sentir exactamente o oposto: sentir que aquele é o momento certo para realizar determinada tarefa ou tomar uma decisão, é o momento em que descubro o modo mais eficaz, o detalhe que faltava, a decisão mais coerente, a forma mais inteligente ou criativa de realizar determinada tarefa. Enfim, aquele momento a que poderíamos chamar o momento m.


quarta-feira, 26 de julho de 2006

saudade

“A saudade é uma tatuagem na alma: só nos livramos dela perdendo um pedaço de nós.” (Mia Couto, O outro pé da sereia)

velhos são (só) os trapos?


Aos (alegados) eufemismos redutores e cheios de comiseração de alguns respondem outros com a rudeza das palavras, pretendendo mostrar igualdade.

Convencionou-se que “velhos são os trapos” e as pessoas de idade avançada não são velhas mas sim idosas.

Corrigiram-me, algumas vezes, e entendi que podia chamar velho ao armário ou a um brinquedo mas não ao tio-avô ou ao vizinho. Pareceu-me, por isso, sempre natural que se diga que faleceu, desapareceu ou se comemora o aniversário de um idoso de 98 anos e não de um velho da mesma idade.

Nos últimos tempos (leia-se anos) tenho ouvido ou lido muitas vozes dissonantes que consideram que usar o termo “idoso” é uma condescendência envergonhada de uma sociedade que maltrata os seus velhos. Estes usam “velho” como oposição a novo - o que me parece coerente - mas também como oposição a criança, adolescente ou adulto e a insistência em nunca usar “idoso” parece-me tão cruel, e ao mesmo tempo cheia de remorsos, como o desprezo com que o fazem os que procuram as palavras doces e politicamente correctas.

Vincent van Gogh. Old Man in Sorrow

segunda-feira, 24 de julho de 2006

silêncio

“O silêncio não é ausência da fala, é o dizer-se tudo sem nenhuma palavra”
(Mia Couto, O outro pé da sereia)

sábado, 22 de julho de 2006

Uma questão de fé



Noticiava o Courrier Internacional desta semana:

“… Cedendo à pressão da Igreja Católica, a companhia de seguros Britishinsurance.com rescindiu a apólice que garantia um milhão de libras (1,46milhões de euros) em caso de nascimento virginal. Três irmãs escocesas, quinquagenárias de Inverness, beneficiavam desse contrato havia seis anos. O prémio destinava-se a custear as despesas de educação de Cristo, se este renascesse.»


É omitido o valor que as clientes despendiam por este seguro que permitiria a Cristo usufruir de uma educação milionária e confesso alguma curiosidade. Ao mesmo tempo, interrogo-me se, neste caso, a companhia de seguros deveria ser acusada de burla ou se devemos compreender e aceitar tudo em nome da fé…
Mas uma certeza eu tenho: esta é mesmo uma daquelas ideias que não lembra a Cristo… apenas às candidatas a mãe.

Patri… quê?!?



Passados alguns dias da euforia do Mundial de Futebol, ainda se encontram resquícios da febre nacionalista que nos assolou, como ilustra um cartaz manuscrito exposto na montra de uma loja (cujos empregados são jovens que, certamente, frequentaram pelo menos o Ensino Básico) contendo a seguinte informação:

Bandeira de Portugual
a 3,99€

Ao gesto patriótico de vender (ou comprar) a bandeira nacional prefiro, sem dúvida, o dever patriótico de respeitar a Língua Portuguesa e escrever correctamente o nome do nosso país.

quarta-feira, 12 de julho de 2006

defeitos e feitios

Cada-um-é-como-cada-qual-e-temos-de-entender-e-respeitar-as-personalidades-dos-outros-porque-nós-não-somos-perfeitos-nem-devemos-fazer-julgamentos-injustos-e-etecetera-e-tal.
Depois de anos a ouvir estas lengalengas bem intencionadas até acredito que se devem pôr em prática. Por vezes, até penso que consegui desenvolver alguma tolerância em relação aos tais “outros”. Mas só por vezes! É que para entender alguns preciso de recargas de tolerância! Suspeito que se vendam por aí algures, em algum supermercado, pois só assim é possível que haja quem sorria e rejubile quando solicitado a colaborar nas decisões e organização da vida alheia, mas ainda não as descobri nas prateleiras dos supermercados junto dos chás e ervinhas milagrosas.
Não consigo entender as pessoas que teriam capacidade para serem autónomas mas que gostam de mostrar que precisam dos outros (muitas vezes menos habilitados para opinar) em tudo o que fazem ou pensam poder vir a fazer: uma opinião sobre vestuário, uma boleia, uma receita culinária, um conselho sentimental, estacionar o carro, preparar um medicamento, decidir o jantar, costurar um fato de Carnaval, a educação dos filhos, decisão de voto, hora de levantar, cumprimento de rituais religiosos, canal de tv a assistir, marcação de consulta, a prenda a oferecer à prima que mais ninguém conhece, compra de medicamentos na farmácia, redacção de convocatórias e actas ou um simples postal de aniversário… a lista seria interminável… E isto tudo pedido a quem conduz por necessidade, não tem filhos e nunca preparou um medicamento para crianças, na cozinha e na costura situa-se pouco acima do medíocre, não gosta de dar palpite na vida alheia e principalmente não gosta que se metam na sua vida ou a chateiem com aquilo que não lhe diz respeito!

quinta-feira, 29 de junho de 2006

Verdade


Verdade

A porta da verdade estava aberta,
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.
Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só trazia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.
Arrebentaram a porta.
Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metades
diferentes uma da outra.
Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela.
E carecia optar.
Cada um optou conforme seu capricho,
sua ilusão, sua miopia.

(Carlos Drummond de Andrade)

domingo, 25 de junho de 2006

de... passagem


Li há uns anos (muitos anos!) uma crónica que comentava o comportamento dos peões nas passadeiras. Nessa altura ainda eu não era condutora mas lembro-me que me diverti com a visão do cronista, que não recordo quem era, embora tenha suspeitas. Em traços muito gerais, dizia ele, que frequentemente o transeunte abranda o passo quando atravessa uma passadeira e faz tudo aquilo que não se lembra de fazer quando passa noutro local e a este propósito desfilava um rol de exemplos bastante caricatos.
Agora que sou condutora e que tenho uma visão privilegiada sobre o assunto, confirmo que o cronista exagerou muito pouco na sua descrição. Observo muitas vezes que o comum dos peões quando se encontra sobre a passadeira, com um ou vários carros e os respectivos ocupantes à espera que ele atravesse a via, se sente tomado de um tal poder que o impele a prolongar o mais possível aquela travessia. Frequentemente, fá-lo a olhar para o condutor com uma expressão de orgulho.
Também há os que correm na passadeira até terem a certeza que estão perante um veículo que parou para os deixar atravessar e nesse momento, talvez vencidos pelo cansaço, reduzem drasticamente o passo e o que era uma correria, certamente por pressa de chegar a algum local, se torna num descontraído e vagaroso passeio contemplativo.
Este prazer em atravessar quando se têm automóveis à espera é ainda mais notório em peões que aguardam pacientemente junto da passadeira enquanto olham para a esquerda e a direita, confirmam que não há qualquer vestígio de trânsito e permanecem quietos e ledos até que um carro se aproxima e só nesse momento resolvem atravessar, por vezes lançando um olhar ameaçador ao condutor como quem diz: “Calminha! Nem te atrevas a avançar que agora passo eu!!!” - assim mesmo neste tom, pois, como toda a gente sabe, em discussões as ameaças ocupam o lugar das fórmulas de delicadeza e é tudo “tu cá, tu lá”.
Este comportamento terá, certamente, uma explicação psicológica quiçá sociológica. Sendo áreas que não domino, não me atreverei a tecer teorias… Suspeito mesmo que haverá alguma comissão a quem tenha sido atribuída essa tarefa, mas não deixa de ser um comportamento que me diverte... ou que me irrita, consoante o estado de espírito do momento.

quarta-feira, 21 de junho de 2006

Respondendo à questão do dia



Não, não vou deixar de trabalhar
nem alterar a minha agenda
para assistir ao jogo de futebol





Dúvida metódica


Quando somos mais sinceros?

- quando num acesso de fúria proferimos palavras duras com o intuito de ferir

ou

- quando acalmamos as emoções, organizamos os pensamentos e medimos as nossas palavras sem esquecer o efeito que podem provocar?


terça-feira, 20 de junho de 2006

TPC - tempo para convívio

O Ministério da Educação propôs que os trabalhos de casa sejam realizados na escola e os pais e encarregados de educação aplaudiram. Todos alegam razões muito nobres:
- terminar com um factor de discriminação, pois há crianças cujos pais não têm capacidade para fazer o acompanhamento das tarefas escolares;
- maior competência dos professores para a realização desta tarefa, nomeadamente, no que respeita à aquisição de métodos de estudo adequados;
- evitar a sobrecarga das crianças que, após um dia aulas e frequentemente outras actividades extra-curriculares, chegam a casa extenuadas;
- dar às famílias a possibilidade de usufruir de um tempo de qualidade com os filhos, evitando o desgaste que a realização conjunta dos trabalhos escolares provoca.
À primeira vista, até parecem boas razões para que os malfadados trabalhos sejam realizados na escola mas esse tempo que passa a estar à disposição das famílias para convívio familiar será, de facto, aproveitado? Ou será apenas mais tempo dedicado às telenovelas e ao futebol, por parte dos pais, e à PlayStation, aos Morangos e às conversas em chats, por parte dos filhos? É inegável que esta situação simplificará a vida aos encarregados de educação que deixarão de ser alertados para o facto de os filhos não realizarem os trabalhos de casa. É óbvio que muitas famílias aproveitarão para se sentirem ainda mais desresponsabilizadas se a criança não está a responder de forma positiva às aprendizagens. Afinal… essa responsabilidade cabe à escola… Quando penso nesta questão, não consigo deixar de estabelecer um paralelo com os casais divorciados. Passo a explicar.
Toda a gente conhece as queixas de uma mãe divorciada que trata da educação do(s) filho(s) sozinha e que embora solicitando a presença ou ajuda do pai não vê este pedido realizado mas que se confronta com a felicidade do filho que, após ter sido deixado esquecido durante semanas, entra em casa radiante com a bicicleta nova que o pai lhe ofereceu. Aquela bicicleta que a mãe tencionava oferecer apenas no próximo Natal, se o comportamento e o aproveitamento escolar fossem merecedores, mas que o pai lhe ofereceu apenas para se redimir das suas ausências.
A escola passará, desta forma, a ser a mãe presente que exige, que educa, que ensina que é preciso esforço para merecer aquilo que se deseja. A família continuará a ser eternamente o pai ausente que apenas quer saber as notícias felizes, que oferece prendas, que dá a ilusão de que tudo se alcança sem que seja necessário lutar para isso.
Será desta forma que as crianças se aproximarão da essência da escola e atingirão todos os ensinamentos que se pretendem transmitir? Não creio…
foto de Robert Doisneau

E se me bastasse...


E se me bastasse…
… admirar o azul do céu…
… sentir na pele o calor do sol…
… deixar-me embalar pelo bater das ondas…

E se me bastasse…
… respirar o aroma das flores…
… escutar o som do vento nas folhas…
… contar as estrelas que me servem de tecto…

E se me bastasse…
… imaginar-me a sonhar sobre as nuvens multiformes…
… sentir o cheiro da terra molhada…

E se me bastasse…
… viver cada momento sem me refugiar no “antes” e sem temer o “depois”?


segunda-feira, 8 de maio de 2006

Sabedoria impopular 4



Quem espera…
… (nem) sempre é alcançado
.


(foto de Henri Cartier-Bresson)


segunda-feira, 13 de fevereiro de 2006

Pergunto-me...





... se a capacidade de voltarmos a acreditar depois de nos desiludirmos é, de facto, inesgotável.



sexta-feira, 10 de fevereiro de 2006

Sabedoria impopular 3



Quem diz a verdade...
... nem sempre é entendido...


(Despair, Edward Munch)




terça-feira, 7 de fevereiro de 2006

quase podia ser uma piada...



- "Setôra", o que significa souvent, na segunda linha?
- Está no vocabulário, no fundo da página.
- (ar profundamente surpreendido) Isso tudo?!? Espere um bocadinho, "setôra", para eu ter tempo de escrever!



domingo, 5 de fevereiro de 2006

Pequeno contributo linguístico




Presente do Indicativo do verbo “ensimesmar-se”

Eu enmimmesmo-me
Tu entimesmas-te
Ele ensimesma-se
Nós ennosmesmamo-nos
Vós envosmesmais-vos
Eles ensimesmam-se

E agora para dizer mais rápido, o Presente do Condicional

Eu enmimmesmar-me-ia
Tu entimesmar-te-ias
Ele ensimesmar-se-ia
Nós ennosmesmar-nos-íamos
Vós envosmesmar-vos-íeis
Eles ensimesmar-se-iam


Hoje enmimesmei-me e deu-me para isto...



sexta-feira, 3 de fevereiro de 2006

a contar os minutos....

... que me separam do fim-de-semana...


Foto de Robert Doisneau

terça-feira, 31 de janeiro de 2006

o meu mundo vazio de palavras



Com alguma frequência passo pelos meus momentos de silêncio. São momentos em que me distancio das palavras, sejam pela via oral ou escrita, sejam proferidas por mim ou apenas escutadas na voz dos outros. Todas me incomodam igualmente. Invento dores de cabeça que não tenho ou preocupações banais que não me ocupam para justificar a ausência ou para evitar um assentimento sorridente ao que me dizem mas não escuto. Todas as vozes me agridem por exigirem uma atenção que não lhes quero dar. Até a leitura, que tantas vezes é o meu único refúgio e apetecida companhia, me incomoda porque me distrai de mim. Perco-me no tempo que só vejo passar enquanto conto os minutos que faltam para que me seja possível reconstruir o meu muro e estar a sós comigo e o meu mundo vazio de palavras.

terça-feira, 24 de janeiro de 2006

Vou comprar o Ronaldinho!

Não, não sou fanática por futebol. Aliás, o futebol não me interessa minimamente e o único que sei em relação a este desporto é que se pretende marcar golos na baliza do adversário. No entanto, não entendo que esta razão seja suficiente para andarem 22 homens a correr entusiasticamente atrás da mesma bola. Para ser franca, nem acho correcto que só haja uma bola para todos. Penso sempre para comigo que seria muito mais justo e agradável, para jogadores e público, se houvesse 22 bolas em campo. Cada jogador teria a sua, o que significa que cada um deles jogaria muito mais e teria mais possibilidades de se exibir, justificando desta forma os chorudos ordenados que auferem e a multidão de fãs que mobilizam. Desta forma não seria um desporto de equipa??? Pois é! Distracções de uma individualista assumida…
Porque vou, então, comprar o passe do Ronaldinho? Li na revista Visão da última semana que o prémio do euromilhões, na altura era de 125 milhões de euros, daria para
a) pagar 12,5 vezes tudo o que os candidatos presidenciais gastaram, em conjunto, nesta campanha eleitoral;
b) comprar a Casa da Música;
c) comprar o Estádio do Sporting;
d) pagar o empréstimo do Banco Europeu de Investimento à Hungria, para a modernização das redes de transporte e de distribuição de electricidade no país;
e) comprar o passe do Ronaldinho.

Analisemos cada uma das hipóteses.
a) as presidenciais ficaram resolvidas à primeira volta. Só haverá novas eleições presidenciais daqui a cinco anos e não me apetece ter o dinheiro parado tanto tempo.
b) a casa da Música vi-a uma vez. A uns metros de distância não me pareceu mal. Mas supõe-se que a Casa da Música contribua para a vida cultural do país e em particular do Porto, não é? Vida cultural? O que é isso? Para quê? Para quem?
c) quanto ao estádio do Sporting, muito francamente, não me apeteceria ter de investir na recuperação dos estragos provocados pelos adeptos leoninos e das equipas adversárias, após cada jogo.
d) dívidas da Hungria?!? Só conheço Budapeste das brochuras das agências de viagens ou do livro homónimo de Chico Buarque. Não tenho nada a ver com isso!
e) por exclusão de partes, e sem qualquer argumento válido devido à minha ignorância no ramo, resta-me comprar o passe do Ronaldinho e acreditar que farei um bom negócio.

Mas antes, não posso esquecer-me de jogar!


dúvida...


Com tanto que se fala das presidenciais e tantos esforços que se fazem para entender os resultados eleitorais e fazer futurologia, surge-me uma dúvida: alguém fez um estudo que indique qual a percentagem de eleitores que exerceu o seu direito de voto, suficientemente, esclarecida e sabendo de facto o que estava a fazer?

amanhecer


Abri a janela e, do outro lado, encontrei para me receber um dia opaco e sem vida. As casas e as árvores de contornos indistintos adquiriram por osmose o tom cinza e baço que as rodeia. Receei integrar-me naquela paisagem unicolor e tristonha. Fechei a janela e rodeei-me de luz, cor e música, criando uma barreira fictícia entre o meu espaço e o mundo exterior.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2006

Sabedoria impopular 2




O que os olhos não vêem...
... o coração pressente.


domingo, 22 de janeiro de 2006

véspera de segunda-feira

fotografia de Robert Doisneau

sábado, 21 de janeiro de 2006

na vida como num filme

Por vezes imagino a minha vida como um filme que está a ser rodado e exibido em tempo real.
Nesse filme há um narrador omnisciente que conhece e dá a conhecer todas as situações, sem omitir qualquer pormenor. Conhece-me perfeitamente e também a todas as personagens que comigo contracenam. Conhece os nossos defeitos e qualidades, os nossos vícios, sonhos, medos e ambições. Sabe quais são os nossos sentimentos e pensamentos mais secretos. Muitas vezes, compreende aquilo que não entendemos ou que recusamos entender.
Quem assiste ao filme sabe quem são os bons e os maus, os hipócritas e os sinceros, quais as razões que nos movem, onde estão a mentira e a verdade. Sabe quando temos ou não razão, quando somos injustos, quando magoamos ou quando nos arrependemos desnecessariamente. Vê os nossos desencontros, as oportunidades que desperdiçamos, torce por nós e por vezes sussurra-nos, inutilmente, que caminho devemos seguir.
De tempos em tempos, acontece-me querer sair da tela e sentar-me por alguns minutos no meio do público anónimo. Assistir ao filme, apoderar-me do conhecimento que me falta e depois correr para dentro do ecrã e ocupar o meu lugar para que o filme tenha um final feliz.


poema cantado



Bom conselho

Ouça um bom conselho
Que lhe dou de graça
Inútil dormir
Que a dor não passa.
Espere sentado
Ou você se cansa
Está provado
Quem espera nunca alcança

Ouça meu amigo
Deixe esse regaço
Brinque com o meu fogo
Venha se queimar
Faça como eu digo
Faça como eu faço
Aja duas vezes antes de pensar
Corro atrás do tempo
Vim de não sei onde
Devagar é que não se vai ao longe
Eu semeio o vento na minha cidade
Vou p’rá rua e bebo a tempestade.


Chico Buarque de Hollanda

quarta-feira, 28 de dezembro de 2005

As coisas sonhadas...




“As coisas sonhadas só têm o lado de cá… Não se lhes pode ver o outro lado… Não se pode andar à roda delas… O mal das coisas da vida é que as podemos ir olhando por todos os lados… As coisas de sonho só têm o lado que vemos… Têm uma só face, como as nossas almas.”

O Livro do Desassossego, Bernardo Soares



segunda-feira, 26 de dezembro de 2005

être et avoir


Não, não se trata aqui de conjugar os “malditos” verbos franceses.
“Être et avoir” é o nome de um filme (ou documentário) que nos revela o dia-a-dia de uma turma constituída por alunos de diferentes idades e níveis de ensino numa escola de uma região rural, em França.
É um filme doce e ternurento ao qual não conseguimos assistir sem um sorriso tolo nos lábios. Vi-o pela primeira vez na fnac, creio que por ocasião do festival do cinema francês de 2004. Lembro-me de ver pessoas que apenas espreitavam e, depois de observar durante uns minutos, conseguiam arranjar um espaço no chão, em pé ou encostadas a um bocadinho de parede que restasse livre e ficavam a assistir… sempre com o tal sorriso… Voltei a vê-lo agora e gostei tanto como na primeira vez.
Neste filme não temos actores escolhidos através de castings. O professor e os alunos, bem como as suas famílias, são personagens reais. Temos crianças que aprendem, brincam, choram, discutem, se ajudam, têm pequenas alegrias ou angústias. Enfim… um pouco da criança que fomos um dia e que continua a existir dentro de nós.

domingo, 25 de dezembro de 2005

Sabedoria impopular


Tristezas não...
... apagam dúvidas.




sábado, 24 de dezembro de 2005

Desejos de um...




Feliz Natal!

Nuit de Noël, Henri Matisse

sexta-feira, 23 de dezembro de 2005

Cais

Compro com alguma regularidade a revista Cais e foi com tristeza, mas apenas alguma surpresa, que li no Diário de Notícias que foram identificados pela polícia dez falsos vendedores desta revista. A Cais é uma revista de apoio aos sem-abrigo e os vendedores têm direito a 70 por cento do valor da revista, que custa dois euros. De acordo com o código de conduta, os vendedores da revista Cais estão expressamente proibidos de usar o nome da revista para mendigar ou pedir o que quer que seja do público, devem ter idade superior a 16 anos e estar identificados. Qualquer vendedor da Cais "deve também ser portador de bilhete de identidade, de um cartão com fotografia e nome próprio, deve vestir um impermeável da Cais, identificar-se sempre que necessário e cuidar da sua higiene pessoal e apresentação". Ou seja, para quem conhece este código de conduta parece-lhe (quase) seguro que quando está a comprar a revista está, de facto, a ajudar pessoas que tentam ultrapassar a situação em que se encontram de forma honesta. Pessoas que merecem que as ajudemos a ter uma vida melhor, a vida a que têm direito. Parece-me que, a partir deste momento, quando me cruzar com um vendedor da Cais serei uma observadora mais atenta e pensarei duas vezes antes de comprar… infelizmente.

terça-feira, 20 de dezembro de 2005

E depois da homilia... a reflexão

Ontem fui à missa. Não é, nem de longe, um hábito meu. Aliás, se exceptuar as missas dos casamentos e funerais, não ia a uma missa há mais de dez anos. Ainda me lembro… foi um domingo de manhã, era época de exames e tinha passado as noite anteriores a estudar. Nessa manhã resolvemos, eu e alguns amigos da faculdade, ir à missa. Para ser franca, resolveram eles, jovens do norte e muito mais dados ao cumprimento de rituais religiosos. Eu, sulista dos pés à cabeça que nunca teve catequese nem fez a 1ª comunhão, não teria tido essa ideia. E dessa manhã de prática religiosa apenas me ficou esta recordação: a ideia de ir à igreja e assistir à missa, seguida de um almoço improvisado no jardim da cidade antes de voltar a um árduo e intenso estudo.
Voltando ao início: ontem fui à missa. Não era a minha intenção. Pretendia apenas entrar na igreja. Queria sentir durante alguns minutos a paz que me pareceu apenas conseguir encontrar naquele lugar. Quando cheguei e ouvi os cânticos senti-me muito bem e resolvi ficar. Sentei-me no último banco, como fazem nas escolas os alunos mal comportados.
Pouco depois, o pároco falou de mulheres estéreis e achei-o cruel. Falou das mães de Sansão e S. João Baptista (se não me está a falhar a memória) e da bênção que é poder gerar uma criança. Até aqui posso concordar. Mas a conversa que se seguiu pareceu-me brutalmente discriminatória. Enquanto ouvia as palavras que proferia pensava que alguma paroquiana presente que quisesse dar à luz um filho e não conseguisse deveria sentir-se muito diminuída, como se estivesse a pagar um qualquer pecado cometido, e inferior a todas as outras que conseguem ser mães. Em seguida, condenou (ainda que não abertamente) as mulheres que por razões profissionais, económicas ou outras adiam ou abdicam dessa bênção. Discordo duplamente. Deveria este padre saber que todas as mulheres, embora sem negarem que ter a capacidade de gerar uma vida é uma bênção, têm direito a decidir se querem ou não ser mães. Deveria, ainda, este padre saber que se todas as mulheres tomassem esta decisão de acordo com as suas condições económicas, sociais e principalmente psicológicas, haveria menos crianças abandonadas em lares de acolhimento, menos crianças que passam muito mais tempo na rua do que em casa, que são (des)educadadas em ambientes demasiado duros até para adultos, menos crianças violentadas e usadas como escudo dos pais.
Acabei por me distrair e não ouvi o resto da homília. Apenas despertei dos meus pensamentos quando voltei a ouvir os cânticos.
Quando a missa terminou e saí da igreja estava uma mulher com bastante idade, sentada nos degraus, a pedir esmola. É proibido mendigar naquele local, eu sei. Creio que toda a gente que saiu da igreja sabia. Quero acreditar, também, que apenas por essa razão ninguém lhe deu uma moeda ou, pelo menos, lhe dirigiu um olhar piedoso. Apenas por essa razão, saíram todos alegremente a ligar os telemóveis, a falar das prendas que ainda têm de comprar, a combinar o jantar do próximo fim-de-semana. Apenas por essa razão ninguém olhou para aquela mulher e pensou se seria aquela uma das infelizes estéreis e, por essa razão, abandonada ou apenas uma mãe talvez esquecida pelos filhos.

sábado, 17 de dezembro de 2005

Elogio das pequenas coisas


Não é por ser Inverno e estar muito frio… ou pelo menos não é só por isso. Acho que apesar do ar bonacheirão e por vezes desleixado, as pantufas são bonitas, aconchegantes, boas confidentes e 100% confiáveis.
Quando falamos delas vem-nos, imediatamente, à ideia a imagem de um marido barrigudo e monótono, sentado no
sofá, a assistir a um jogo de futebol e a beber cerveja, segurando com a outra mão o telecomando. Ou a senhora de idade avançada que faz croché enquanto assiste emocionada às dez telenovelas do dia. Sei que lhes falta glamour e sensualidade e que não fazem parte dos objectos modernos e com muito estilo que nos gabamos de ter e mostramos às amigas para ficarem verdes de inveja. Também não me consta que tenham um lugar de destaque nas revistas dedicadas à colecção Outono/Inverno ou nos grandes desfiles de moda. Mas quem mais nos atura de manhã, com os olhos semicerrados, despenteados e um terrível mau humor, a implicar com este mundo e até com o outro, se existir? Quem nos espera, pacientemente, ao lado da cama, e nos aconchega os pés e o ego fazendo-nos ver que o mundo não é assim tão cruel e ainda há algo em que podemos confiar? Não refilam quando as maltratamos ao calçar, quando as trocamos constantemente de pé ou quando as descalçamos como se estivéssemos a tentar não falhar um penalti. Fazem-nos companhia, ouvem as nossas queixas e dançam connosco quando estamos felizes ou nos esforçamos para ficar. Acredito que até nos limpariam as lágrimas, se pudessem.
Eu não sei se as minhas são mais obedientes do que as suas semelhantes mas nunca se afastam. Já consegui perder quase de tudo, ou pelo menos perder de vista por algum tempo, mas as minhas pantufas não, exceptuando uma meia dúzia de vezes em que quase desapareceram no sofá ou debaixo de algum móvel, o que é muito bom dentro da minha média.
Existem de vários modelos e cores, de acordo com os gostos, personalidades e resistência ao frio de cada um. Existem as que têm tons sóbrios ou suaves e as garridas, as leves e as extremamente aconchegantes.
As minhas são garridas e muito quentes e, numa altura em que tenho tão poucas certezas, gosto de saber que ao acordar estão lá, uma ao lado da outra, a uma distância de cerca de 15 cm entre elas e a outros tantos da cama ou do local onde eu estiver, a do pé esquerdo onde colocarei o pé direito e vice-versa. Sempre!

quinta-feira, 15 de dezembro de 2005

Quando nenhum título se adequa...

Desta vez foi um bebé a engrossar a lista das crianças vítimas de abusos e maus-tratos infligidos por familiares.
Escrevem-se agora muitas páginas nos jornais, dedicam-se muitos minutos nos blocos noticiosos da televisão e da rádio. Provavelmente, servirá como tema para um debate, um fórum ou uma reportagem.
Quando se ouvem estas notícias tudo deixa de me parecer importante. Nem o défice, o desemprego, as presidenciais ou o protocolo de quioto têm importância. Para que me serve um mundo onde temos monstros camuflados de pessoas que vivem lado a lado com as suas vítimas? Onde crianças ou outros inocentes sofrem às mãos e aos caprichos de seres desprezíveis que agem com uma maldade intrínseca e injustificável?
Como podemos viver tranquilos, ou apenas preocupados com as pequenas insignificâncias do dia-a-dia, se pensarmos que estes monstros se cruzam connosco na rua, estão no nosso local de trabalho, frequentam os mesmos cafés, utilizam as nossas estradas ou, por vezes, vivem na nossa casa? E em muitos casos não lhes denotamos o menor sinal que indicie capacidade para cometer uma barbaridade deste género. Chegamos até a mostrar-lhes a nossa revolta perante estes casos e dão-nos toda a razão, mostram-se solidários com a raiva e indignação que sentimos! E se algum dia são suspeitos de alguma atrocidade há sempre alguém que garante que é impossível, pois é muito boa pessoa. Boa pessoa ou bom fingidor? Mas mesmo em indivíduos que conhecemos e julgamos capazes de actos pouco recomendáveis ou maldosos julgamos que se dedicam a pequenas maldadezinhas e nunca nos ocorre tamanha monstruosidade! Não queremos acreditar que existem. Enquanto conseguimos, negamos e negaremos sempre a sua existência.
Tal como também se negam as responsabilidades e se empurram as culpas. Apuram-se agora pormenores a que nunca se deu importância, fala-se de falhas de informação… Virão depois as justificações que, a troco de dinheiro e da alma, os advogados alegarão para amenizar a culpa dos monstros: perturbações psicológicas, infância problemática, nascimento numa família desestruturada, problemas sociais, económicos e todos os outros que são utilizados em casos idênticos.

Daqui por uns dias deixará de ser tema de conversa e de abertura de jornal televisivo e será recordado apenas como mais um número quando outro caso semelhante for a notícia do dia.
E enquanto nós adormecemos vencidos pelo cansaço de mais um dia, esquecemos que no mesmo instante há muitas crianças a quem a inocência e alegria da infância estão a ser roubadas definitivamente.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2005

É inevitável...

Situação 1

Depois de fazer as compras dirijo-me à caixa para pagar. Há duas filas, uma com três pessoas e outra com cinco. Obviamente, dirijo-me à caixa que tem a fila menor e espero pacientemente. A pessoa que está a ser atendida usa um vale de desconto. A funcionária demora algum tempo a introduzir os dados. O cliente seguinte reclama porque o preço registado na máquina é superior ao indicado no expositor. A empregada chama o responsável pela secção. O tempo passa… Chega o responsável, pega na caixa e vai confirmar o preço no expositor.

As cinco pessoas que estavam na outra caixa já foram atendidas e algumas que chegaram posteriormente também.

Na minha caixa a fila aumenta. Abre uma terceira caixa e é dada a indicação de que os clientes deverão ser atendidos pela ordem em que se encontram. Um espertinho que estava atrás de mim não respeita esta indicação e acaba por ficar à minha frente, mas não reclamo, afinal só tenho de esperar que duas pessoas sejam atendidas. O papel da máquina registadora termina. A empregada tenta colocar o rolo novo mas não consegue e acaba por pedir ajuda a uma colega.

Na caixa ao lado o problema do preço errado já foi solucionado e não consigo deixar de olhar com raiva para a pessoa que está a ser atendida e está no local onde poderia estar eu… se não tivesse mudado de caixa.

A questão do papel já foi resolvida. A pessoa que está à minha frente - o espertinho - já está a ser atendida. Fez uma devolução e quer utilizar o respectivo vale para pagar a despesa desse dia. A empregada chama o responsável. Arrependo-me de não ter reclamado quando me passou à frente. Está no “meu” lugar com a agravante de mo ter roubado.

Na caixa onde eu estava inicialmente tudo parece correr às mil maravilhas: não há vales de descontos, não há devoluções, não há falta de papel, não há enganos nos preços, nem sequer há problemas nos pagamentos com Multibanco.
Todas as pessoas que estavam na primeira caixa, que eu preteri, foram atendidas há imenso tempo e nem se vislumbra delas o mais breve sinal. Penso que devem andar satisfeitas com as suas compras e com a rapidez do atendimento e este pensamento enfurece-me mais.

Passam alguns minutos que me parecem horas. A situação do espertinho é resolvida e sou finalmente atendida. Saio a pensar que não volto a deixar-me enganar.


Situação 2

Mais compras. Novos pagamentos. Duas caixas. Uma com cerca de quatro ou cinco pessoas. A outra com mais duas ou três. Desta vez não me vou deixar enganar! Vou para a fila que tem mais gente. Sinto os olhares espantados dos clientes que estão na fila menor. Uma senhora de idade que chega pouco depois pergunta-me se a outra caixa vai fechar. Eu digo-lhe que não mas não lhe revelo o que só eu sei: aquela caixa tem mais gente mas vai ter um atendimento muito mais rápido. A senhora ainda hesita mas vai para a fila menor. Na “minha” caixa há atrasos que não entendo bem. Creio que se trata de enganos nos códigos do Multibanco, pagamentos com cheque ou produtos que não foram pesados ou perderam o preço.

Na outra caixa tudo decorre com normalidade e maior rapidez.

Ainda penso em mudar mas tenho a certeza que não o devo fazer. Mantenho-me confiante, a fila que parece menor e mais rápida é sempre a mais demorada. Sempre. Não há excepções.

A senhora que me tinha questionado sobre o fechamento da caixa acabou de ser atendida. Enquanto coloca os últimos produtos no saco olha para mim e sorri. Acredito que seja um sorriso de simpatia mas, no momento, parece-me um insulto.

Tenho duas pessoas à minha frente. Ocupo o tempo a tentar adivinhar o que irá acontecer com os dois clientes que falta atender: será a máquina que encrava? A senhora loira ter-se-á esquecido de pesar os legumes? O senhor de barba terá reclamações a fazer? Não haverá trocos na registadora sendo necessário esperar pela reposição dos mesmos? Não. Nada disso. Aparece uma empregada nova, em idade e no posto de trabalho. A empregada que está de serviço explica à recém-chegada o funcionamento da caixa e coloca-a a praticar sob a sua supervisão. Lentamente, o atendimento decorre sem mais incidentes. Coloco os meus produtos sobre o balcão, está quase na minha vez. Pago e saio chateada a pensar qual será a estranha razão que justifica o facto de haver sempre atrasos na “minha” caixa.
Nesse momento, apercebo-me que me esqueci de comprar o que realmente necessitava e me tinha levado até ao supermercado. Ainda dou um passo atrás mas desisto. Não me sinto com coragem para passar pela mesma situação uma terceira vez.


sábado, 3 de dezembro de 2005

Acide sulfurique


Amélie Nothomb é uma jovem escritora belga.
Já escreveu vários romances e tem livros traduzidos em 23 línguas, inclusive em português. Tenho-a lido na língua original e não sei se nas traduções se perderá alguma da sua criatividade e capacidade de ironizar. Conheci-a com o romance Stupeur et tremblements que me divertiu bastante. Desde então li mais seis ou sete, todos os que tenho encontrado nas livrarias portuguesas.
No seguimento dos reality shows, Acide sulfurique, de Amélie Nothomb, leva-nos para “concentration”, um reality show em que as vítimas (aqui não lhes poderemos chamar concorrentes) são apanhadas na rua, tal como nos relata o primeiro capítulo em que nos parece estar a assistir à descrição de prisão de judeus na 2ª guerra mundial. São levadas para campos de concentração onde os carrascos, previamente seleccionados, as maltratam e humilhavam sistematicamente. São mal alimentadas, obrigadas a fazer trabalhos forçados e todos os dias algumas de entre elas são mortas. Tudo isto é filmado em directo e transmitido pela televisão para gáudio de um vasto número de telespectadores que se “horroriza” e “sofre” com as vítimas. É assustador. E o que mais assusta é pensar que poderemos chegar lá…

Das caixas e outras manias


Quase poderia dizer que colecciono caixas caixinhas e projectos de caixotes. Mas não gosto de colecções. Não sei qual é a razão mas fico nervosa só de pensar na palavra… Enerva-me pensar num acumular de objectos idênticos com pequenas diferenças entre si e que se acumulam, se sobrepõem, se comparam, se exibem, se guardam para quê? Para quem? Para quando? Mas se gostasse de colecções coleccionaria caixas. Tenho várias. Muito pequenas, apenas pequenas, médias e (quase) grandes. Em todas guardo qualquer coisa. Cada uma delas tem um significado especial. Vão desde as caixas compradas por mim numa qualquer feira de artesanato até à caixa feita manualmente por alguém especial, passando por algumas oferecidas por uma tia que descobriu que eu gostava de caixas e resolveu dessa forma uma das dúvidas que a atormentava todos os anos na época natalícia. Nelas guardo de tudo, hábito que me dá bastante jeito pois sempre que preciso de algo de que desconheço o paradeiro, e que tem dimensão para caber numa caixa, é por elas que começo a procurar. E nesse “tudo” incluo lápis e canetas, botões, postais, fotos, contas pagas ou para pagar, bijutaria, pilhas, chaves, pacotes de açúcar, disquetes e cds, rebuçados, bilhetes de transportes públicos usados ou não, e neste último caso acabo por encontrá-los quando terminam a validade, caixas de medicamentos, listas de compras, bilhetinhos com números de telefone ou moradas e várias outras coisas… Abro-as sempre à espera de um mundo que se me revela, despertam-me recordações. São muito mais do que um mero objecto decorativo com alguma beleza. Têm conteúdo. E, na maior parte das vezes, um conteúdo que me surpreende… Haverá algum outro objecto com uma característica tão humana?

sexta-feira, 2 de dezembro de 2005

"Dessas coisas..."

Na pastelaria onde tomava café, um destes dias, ouvi duas senhoras com idades que rondariam os sessenta anos falarem sobre a Educação Sexual nas escolas. Diziam elas que - cito - “os miúdos não precisam nada dessas coisas porque sabem até demais… Dessas coisas sabem mais do que os professores”. Hoje recordei-as quando uma aluna de 12 anos entrou na aula muito excitada porque “há na turma um rapaz que é gay: tem duas namoradas!”

Estão os miúdos muito esclarecidos, não estão?


Querido Pai Natal

Não, não fiques nervoso. Não sou mais uma a escrever uma carta com uma interminável lista de prendas para me ofereceres. Sei que deves ter muitos pedidos e já faltam poucos dias para a distribuição dos presentes. Provavelmente a crise também te atingiu e talvez tenhas sido obrigado a despedir alguns dos teus duendes. Imagino-te muito atarefado com uma enorme lista na mão e a correr pelas várias lojinhas do comércio tradicional, querendo dar o bom exemplo ao cidadão comum e, finalmente, querendo poupar tempo e já menos preocupado com a qualidade dos produtos ou com a economia nacional, perdido num qualquer centro comercial.

Eu tratei de tudo sozinha. Não acho correcto sobrecarregar um senhor de idade avançada e tão simpático como tu. Já me comprei uma mala que estava a precisar, um colar que combina lindamente com a mala e dois livros que andava a cortejar há vários dias. Desta forma poupei-te imenso tempo e algumas correrias e agora só te peço que reponhas o dinheiro na minha conta.

Como vês, já fiz a minha parte, espero que agora faças a tua!

Boas compras e Feliz Natal!

quarta-feira, 30 de novembro de 2005

O som da solidão


Pode ser o som do silêncio… ou o burburinho de uma multidão…
É o ranger de uma porta que se abre numa casa quase desabitada. O som da chave que se pousa sobre um móvel, onde permanecerá até que a pessoa que aí a colocou - quem mais? - a volte a utilizar. O som dos próprios passos sobre o tapete. É o som de um aparelho de rádio que debita as mesmas notícias de meia em meia hora. Do virar das páginas dos livros que se lêem compulsivamente e nos quais se procura companhia. O som dos nossos pensamentos.
A solidão soa a conversas distantes na mesa do café ou no local de trabalho. Soa a diálogos de surdos numa conversa telefónica em que apenas o eco nos devolve as palavras. É o som da resposta desajustada à pergunta que fizemos. Ou a pergunta que se segue à resposta por nós dada fazendo-nos sentir que as palavras proferidas têm um significado completamente diferente para quem as ouve, como se se falasse uma qualquer língua estrangeira quase desconhecida neste nosso cantinho peninsular. É o som das conversas e gargalhadas que nos rodeiam, indiferentes ao que possamos sentir. Tem o som dos temas banais que se discutem. O som das generalidades que tocam superficialmente a todos mas que se furtam a revelar alguém. Soa ao momento de felicidade ou de aparente aborrecimento que se comentam sem se aprofundar. Soa ao cumprimento socialmente correcto e vazio e à palavra de conforto dita sem sentimento. Tem o som das conversas que não se têm. Das discussões de factos e ideias que terminam quase antes de começar. É o som da vida exterior indiferente a tudo o que de mais humano existe em nós.